domingo, 13 de novembro de 2011

História do Fim - pelo correio

Estive sumida deste blog por algum tempo, não por falta de produção mas por excesso...

Para manter o blog vivo, mostro um trabalho que fiz numa matéria da artes gráficas na EBA que foi produzir uma espécie de jornal de literatura. Olha só:


Fiz algumas impressões em preto e branco disso também, e quem quiser, é só me deixar o endereço (nos comentários ou por laurinha.cohen@gmail.com) que eu envio uma cópia pelo correio pra sua casa.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Tarde

Há uma geografia do tempo para a qual nunca será criada uma moeda de percurso. Não falo de atravessar um espaço apenas (por exemplo da minha casa até a sua, da sua casa até o centro), mas no tempo impreciso e interrompido que levamos para ir de um lugar ao outro, e como ele sempre resulta em negatividade de atraso ou extrapositividade de espera. Não falo em pagar um pedágio, mas de não saber quanto tempo exato tenho que pagar para cumprir uma tarefa.

Os segundos caem como coisas incontáveis, caem como água, arroz cru, areia, posso demorar mais hoje e fazer mais rápido amanhã, e ver sobrar água no copo a mais do que eu tinha sede.Ou manter-me com sede por tempo demais, exausta de cada sensação de falta. Talvez ainda pudéssemos sincronizar passos e o horário do ônibus cheio que sempre atrasa, mas talvez se nesse atraso pudéssemos, por exemplo, trocar minutos por galinhas, ou por laranjas, mas quando não há uma moeda de troca estabelecida e canonizada, não saberemos se a troca foi realmente justa. Se cheguei, toquei a campainha, e vejo o sol indo embora, diferente de outros dias em que um sol forte e vermelho atravessava a fechadura e estourava um desenho na parede oposta, não posso olhar para um relógio que não carrego. Bato palmas como numa cidade que nem existe mais. Chamo seu nome. Penso de novo na teoria rarefeita dentro do ônibus e de repente percebo que não há nada que pague; foi bem aí que eu percebi que tinha chegado tarde.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Postal para o Eduardo

(Enviado pelo correio para o Eduardo, que já respondeu no blog dele)



Ao pensar em você, sem querer quis saber a quantas anda seu coração, ou a quantas andam as suas mulheres, os seus amores, os seus poemas. Elas caminham ou te abandonam? Bordam ou acenam? Pregam um botão na sua camisa? Quantas são elas? E de que forma inexata despertam essa sua musa intermitente?
Um abraço, Laura Cohen.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

postal para curar uma mononucleose

(Enviado para a Ana Paula)



Postal para curar a sua mononucleose
Onde dói mais esse vírus Epstein-Barr?
Procuro em toda parte e apesar do seu nariz entupido e do seu pulmão impedido, só leio a palavra "gânglios". Será que o correio entrega gânglios novos em casa? Consigo dessa vez mandar um pulmão novo, para ver se agora você consegue conversar conosco.
Um beijo, Laurinha

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Ossário (III)

Hoje de manhã havia uma menina no ônibus... Parecia que ela tinha passado a noite fora, pelo modo que ela quase dormia encostada no vidro, os cabelos presos e um cheiro de banho misturado a um cheiro de cigarro, misturado a uma maquiagem borrada num rosto meio sujo meio limpo. Estava tão cedo que o sol não tinha ainda ultrapassado a linha dos prédios, de modo que havia essa luz difusa em tudo, em todas as partes, mas em lugar algum.

Dormi pesado essa noite, digo, de ontem pra hoje. Havia algo naquela menina que me lembro uma cidade, me lembrou Berlim e outras cidades muito móveis que conheci muito mal, ou me lembrei especificamente do apartamento dele no fundo de um corredor muitíssimo comprido... Talvez tenha sido esse cabelo loiro da menina do ônibus. Outro dia Flora me mandou uma carta dizendo que viajar (como apaixonar-se) é uma experiência de morte, e talvez por isso essa necessidade de viajar tanto, para aprender a conviver num silêncio cotidiano com todo o sentido das coisas.

Passei hoje por quatro vezes em frente a um cemitério, e por volta das onze enterravam uma pessoa... Me lembro daquela viagem de trem que fizemos, e que decidimos parar no meio do caminho numa cidade que havia sido destruída na década de quarenta (não direi o nome da guerra ou da cidade) e nós víamos nos cartões postais imagens da cidade destruía, enquanto andávamos em lugares confusos e antigos. Disse que a mãe dele havia nascido lá, e havia essa noiva tirando fotos... Me impressiona como essas noivas adoram se casar entre ruínas, comentei a respeito de Ouro Preto, que havia sempre uma noiva.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Ossário (II)

Olho para o osso da bacia dele despontando quase para fora da pele. Posso esticá-lo com os dedos, como se ele fosse de balão, e ver o osso mais de perto por dentro da carne, mas tenho medo que a carne se rompa e sangre nos meus dedos um rasgo que eu não vou poder alcançar. Enquanto descansa parece novamente frágil. Os pêlos raleiam aqui e aumentam mais embaixo, engrossam, escondendo uma parte do corpo que parece ter pudor de existir. Depois, uma barriga voltada pra dentro (se ele está deitado de costas, posso chamar essa parte dos homens de “ventre?”), endurecida e um pouco estufada bem abaixo do umbigo muito infantil que ele tem, saltado pra fora, seguindo os pêlos num caminho reto até onde o peito existe, e ele se espalha. Uma linha da pele grossa brilha, repasso o dedo na cicatriz que me deu nojo faz uma hora. Acho que me acostumo com ela, longa o bastante para substituir um coração defeituoso por um coração de um morto gelado. Esse coração não é meu, diria quando eu lhe desabotoei a camisa com os dedos tremendo. Fala como quem perdeu um braço há dez anosr. Espalmo a mão e confiro que sob a pele quente e confiro se ele age pulsando como um coração normal.

domingo, 14 de agosto de 2011

Ossário (I)

Parece que os ossos dele doem mais; eu penso a cada abraço mais próximo que ele me dá, de repente, quando surge uma data especial que merece um abraço mais afetivo, diferente das saudações matutinas diárias e paralizadas.
Espero muito para abraçá-lo e quando abraço, não gosto dos ossos.
Mas ao mesmo tempo, quase gosto dos ossos porque debaixo de qualquer carne e de pé, próximo do meu corpo, os ossos provam que ele está vivo.
E quase gosto do cheiro neutro dele.
É um gosto de casa qualquer, roupa qualquer, corpo qualquer, da mesma forma que o rosto dele é quase um rosto de um homem qualquer, a não ser por uma falta de idade real, por um olho bonito, por umas expressões lentas e finas.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Sobrar tempo

(Para Pedro-Cunha que tirou esse delírio da gaveta)


As pessoas que se estabelecem nas calçadas à noite
de pé e luminosas, sugam do estômago (enquanto
buscam nos letreiros no alto a indicação do tempo)
o lodo e a areia que existe lá dentro. Não expelem,
nem quando querem, as palavras
descascadas do lodo e enterradas na areia;
e percebem, quando marca a hora,
que vai sobrar tempo, por mais que
se canse o ar com sereno ou que se desobedeça tanto
os minutos do letreiro. Só voltam para casa
quando percebem o tanto que falta
para preencher com saliva e lama
a demorada mandíbula da morte.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Livrar-se deles

Possuo, guardados dentro do meu armário, três ou quatro sacos de lixo cheios de cadernos. Estes cadernos contêm diários, esboços de contos, histórias, notas para romances, idéias, notas gerais que estou muito acostumada a tomar desde muito nova. Acontece que eu preciso me livrar deles. Por isso, estou mandando essa mensagem a pessoas que talvez possam me ajudar.

Meu objetivo não é arrumar um lugar para guardá-los, mas destruí-los da forma mais completa que me for possível. Muitos deles possuem capas forradas de tecido ou couro de mentira e outros possuem espirais de plástico ou de metal, elásticos, fitas, entre outros materiais que não são papel. A destruição tem que dar conta, especialmente, do miolo interior dos cadernos, lugar onde eu escrevi, mas se também der conta desses exteriores mais rígidos (que parecem querer evitar a minha destruição e os efeitos do tempo) eu ficaria muito agradecida. Quanto maior for a quantidade de dano, mais satisfeita estarei.

Um grato abraço,

Laura Cohen Rabelo

domingo, 3 de julho de 2011

O Bazar e a Natureza Morta

video

Pra quem não sabe ainda, participo de um blog chamado Uma Espécie de Bazar, no qual cada mês é proposto um tema, e eu e doze blogueiros somos convidados a criar em cima desse tema.
Esse mês o Schiavo propôs que criássemos em cima da relação que o artista Edward Hopper faz entre sol e melancolia.

Fiz uma natureza morta com coisas amarelas. Quando fui desmontar a cena que eu havia montado no chão da varanda com sol (para fotografar e escrever sobre como era chato o inverno) resolvi fazer um filminho.

Como não soube se cabia muito bem lá, coloquei-o aqui.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Boneca de Corda (Conto premiado no II Prêmio de Literatura da Fumec!)

Oi gente!
No meio desse fim de semestre louco venho (finalmente) postar aqui, como prometido, o conto que ficou classificado em primeiro lugar no prêmio da Fumec desse ano. Meu continho e mais sete contos de outros escritores foram publicados em um livro - "Da Palavra a Literatura: Narrativas Contemporâneas", lançado na universidade Fumec na semana passada. Enfim, obrigadíssima a todos meus queridos que foram, e lá vem o conto:



BONECA DE CORDA
(para Paula Menin)

Fui revê-la por acaso, quando meu primo Nuno me levou ao concerto de uma pianista que estudava com ele, e surpreendi-me quando vi subir ao palco a própria Cristina Argerich, que aplaudi de pé depois de uma sequência de arrepios brutais durante a execução da sonata nº 23 de Beethoven, a Appassionata. Nuno me puxou através das cadeiras do teatro, me arrastando por um monte de pernas no carpete vermelho do chão do conservatório, indo pelas escadas e pelo hall de mármore, onde Cristina depois apareceria – com o rosto exausto, meio confusa, porém sempre alegre – para receber cumprimentos de alguns conhecidos que a esperavam para uma confraternização pós-concerto.

Recebeu-me com um abraço, e fiquei feliz ao ver que ela ainda se lembrava de mim. Eu a havia conhecido fazia três anos, quando ainda éramos calouras e tomávamos o mesmo ônibus para ir à faculdade. Eu estudava jornalismo, ela fazia música. No seu segundo ano de curso, ganhou (por ter a idade certa, passar numa bateria de provas e possuir cartas de recomendação de professores importantíssimos) um ano de estudos em Paris, explícito na música emocionada que eu vira no palco, e na moça ainda mais bonita que ela se tornara. Perguntou-me com doçura se eu continuava indo de ônibus para o campus todas as manhãs. Diante da minha positiva, disse que agora tinha uma gloriosa carteira de motorista e podia me levar todos os dias, se eu quisesse.
Morava a três quarteirões de mim, numa casa grande, com os pais e um irmão mais velho – que fazia o orgulho familiar por ser uma cópia perfeita do pai. Cristina lamentara-se disso certo dia no carro que ganhara dos pais: disse que, às vezes, a música parecia apenas uma brincadeira ou um sonho e que, apesar de todo o talento e tanto estudo, acabaria sendo o que o pai e o irmão eram – donos e administradores de um negócio milionário que tinha o nome da família, uma empresa de mineração, uma ocupação totalmente desprovida de personalidade –, apesar de ser mulher e possuir o estigma de fazer as coisas do seu jeito. A opção por estudar música na universidade havia sido continuamente rejeitada pelos pais por motivos que nem preciso apontar. Cristina costumava dizer que o piano que ela aprendera desde criança era, para eles, algo a se mostrar às visitas, um capricho, como dar corda em uma bonequinha a fim de vê-la fazendo coisas graciosas. Aquele piano, porém, acabou por torna-se para essa boneca um contentamento infinito, sua maneira de passar o marasmo de uma vida confortável, e foi nele que mostrou um talento que as professoras da escolinha de música disseram ser sobrenatural a uma menina de seis anos.

O rosto de Cristina me lembrava um álbum de fotos antigo. Não era bem uma moça antiquada, tinha convicções mais bem construídas que as de várias mocinhas de vinte e um anos (ou até mesmo as da sua mãe tirânica...) que sonhavam com homens ricos, casas grandes, prestígio social e filhos lindos; Cristina não era assim, sabia que podia mais, mas, em contraste com a obstinação latente em cada palavra que dizia, tinha algo de camafeu na aparência, como se atrás daquela figurinha inocente, onírica e de olhos azuis, houvesse alguém que parecia ter vivido mais anos do que aparentava. Recebera, como eu, uma educação exemplar de seus pais endinheirados e cultos, uma vida confortável ao extremo (devo lembrar, porém, esse conforto nunca foi sinônimo de prazer) e crescera numa espécie de torre ou redoma. Podia viajar à Europa e passar temporadas longuíssimas na fazenda da família, quando um fim de semana parecia ter a extensão de dez anos. Eu a compararia assim a Rapunzel, apesar de gostar de manter os cabelos curtos – que Nuno dizia ser um dos mais lindos símbolos da emancipação feminina.

Tínhamos as melhores conversas durante as viagens de carro até o campus. Ouvíamos os CDs que lhe ocupavam o porta-luvas do carro, falávamos de livros, indicávamos filmes, mas, acima de tudo, nosso assunto preferido tinha a ver com antigos e novos relacionamentos. Cristina estava solteira depois de um namoro errado com um saxofonista francês que ela importara consigo do intercâmbio, e, depois de três meses de término, eles ainda conversavam e almoçavam juntos uma vez por semana, tentando fazer do pó algo saudável. Mas a ela não lhe faltavam homens: quando passamos a sair juntas nos fins de semana, eu percebia como ela atraía atenções e cantadas, que eram sempre direcionadas a nós duas, mas eu sabia, qualquer elogio era antes para Cristina, para depois tornar-se meu.

O melhor aconteceu algumas semanas depois que retomamos nossa convivência: estávamos em um bar, e ela teve de ir embora por um motivo qualquer, e logo chegou Breno, outro rapaz que estudava com Cristina e meu primo Nuno. Breno, ao perceber que minha amiga já havia partido, não conseguiu esconder seu descontentamento. Cobriu a boca com a
mão e disse ao ouvido do meu primo uma frase que não pude ouvir. Nuno concordou em silêncio, com um aceno com a cabeça e um sorriso que tentava consolar. Sentada do outro lado da mesa, insisti continuamente que ele contasse o que havia acabado de dizer ao meu primo, e demorei uma cerveja inteira até que ele parasse de hesitar, ficasse sem graça e dissesse simplesmente “eu vou desistir”, baixando os ombros e sorrindo, para depois encher novamente o copo de cerveja. Percebi que ele, como uma dezena de rapazes que eu havia conhecido nos últimos meses, havia se encantado pela minha amiga Cristina.

Durante o resto do fim de semana, guardei comigo a confissão cansada de Breno para contar à Cristina assim que eu entrasse em seu carro às sete da manhã, na segunda-feira. Pensei que a notícia lhe agradaria, que ela me perguntaria mais a respeito do que Breno havia dito, e os dois acabariam juntos ao cabo de algumas semanas, mas Cristina simplesmente sorriu, com uma espécie de cansaço nos olhos: “Mas é óbvio que eu sei que o Breno gosta de mim... Eu não sou boba, eu reparei... Eu gosto é do Sérgio, Lena, eu gosto dele enquanto os outros de quem não gosto ficam se apaixonando por mim”. Essa fala ultrapassou qualquer ideia de extrema ingenuidade que eu tinha de Cristina, e em três segundos ela se tornou para mim uma mulher madura e triste. Senti um desgosto profundo – desta vez eu havia pensado que ela cederia a um dos tantos pretendentes que lhe seguiam as pernas na escola de música, mesmo que ela tivesse recusado todos enquanto repetia para mim que, depois do Henri, o namorado francês, ela “não queria um relacionamento sério” e “gostaria de experimentar mais”; ou seja, queria aproveitar ao máximo a solteirice daqueles dias. Mas Cristina não conseguiu esconder, naquele momento, que a obsessão pelo Sérgio estava se afundando.

Sérgio Hoiffmeister era um jovem professor que já havia dado aula a todos meus amigos estudantes da escola de música, e Cristina mantinha com ele uma relação bem parecida com a que sustentava com Henri. Contava-me com gosto a respeito de seus encontros cotidianos: os almoços, concertos, as conversas diante do piano, quando mostrava suas composições e ele lhe dava opiniões afetuosas e sinceras. Acabou se tornando uma de suas alunas preferidas. Acredito que era essa a intenção de Cristina; precisava ser algo preferido de Sérgio, porque Cristina jamais se contentaria com pouco. O que eu mais temia, entretanto, era o modo como ela agia diante do ex-professor. Às vezes eu a via depois desses encontros com Sérgio, e a cada dia ela se apresentava num estado diferente: ora alegre demais e desesperada de tão feliz; ora ansiosa, melancólica, quieta, pensativa, tão ensimesmada que era capaz de sair trombando o corpo nas coisas da rua e machucar-se severamente.

Fora destes momentos, Cristina tinha isso de sempre parecer alegre: assumia seu ar mais contente quando estava mais triste e agônica. Havia esses dias em que ela estava muito agitada, chegava a ficar histérica: bebia demais, falava bobagem, era arrogante, assumia um tom excessivamente promíscuo ao conversar com os homens que olhavam para ela. Lembro-me de que em um desses dias, diante do espelho do banheiro feminino do bar onde estávamos, Cristina confessou que caía no choro a cada vez que olhava para dentro de si e não entendia nada. Eu a imaginava chegando em casa depois de uma noite dessas, enquanto sua família dormia, Cristina sentava-se na cama e não conseguia enxergar direito, sentia-se toda esvaziada, chegava ao ponto lamentável de ter dó de si, uma pena cheia de ódio, e o pranto vinha poderoso, até tornar-se sono. No dia seguinte, sentia-se um tanto patética, mas deixava os despojos da noite anterior para trás de si, porque agora estava expurgada, fora daquela antiga casca de tristeza e histeria; estava tranquila na sua solidão. Podia agora sentar-se ao piano e tocar o número de horas que lhe aprouvesse. Era o único momento em que não maquiava sua fragilidade.

***

Minha tia Helena (de quem herdei este velho nome sofredor) organizava mensalmente uma espécie de sarau no quintal de sua casa, e eu frequentava a festa fazia alguns anos, a convite de meu primo Nuno. Eu costumava ajudar na cozinha, dispunha-me a servir cerveja e era sempre recebida com muito carinho pelos mais velhos dali, que me emprestavam pilhas de livros, que eu devorava e procurava discutir com alguma propriedade. Mais ouvia do que falava, mais sorria do que me dispunha a recitar algum poema. Quando João disse que Sérgio Hoiffmeister era sobrinho de um dos amigos de sua mãe e que ele havia confirmado a presença no próximo sarau, liguei para Cristina com a maior pressa do mundo, mas ela titubeou um pouco na hora do convite. Ela disse que Sérgio havia descido daquele pedestal onde ela o colocara antes, e que ela não se importava – tinha a voz melancólica, dessas que vem de um dia ruim. Senti raiva e continuei insistindo, perguntando se ela ainda gostava dele, e dizendo que a festa, independente de Hoiffmeister, era sempre uma delícia. Depois, na manhã do sábado em que estava marcado o sarau, Cristina me ligou e disse que passava na minha casa às sete da noite. Ligou mais duas vezes durante o dia que correu, questionando-me a respeito do vestuário apropriado. Lembro-me de que era um desses dias de calor estonteante, cuja noite sempre vinha mais amena. Mas vai fazer frio? Vou de vestido? E com quais sapatos? Aliás, com que roupa você vai? Impaciente, eu disse que, com os olhos bonitos que ela tinha, não precisava ponderar tanto a respeito de roupas.

Apareceu no horário exato, e percorremos metade da cidade até o quintal de tia Helena. O céu anoitecera limpo e, como não havia lua, via-se um bocado de estelas entre as folhas das copas das árvores, sob as quais se distribuíram todas as cadeiras e todos os sofás da casa. No centro, sob uma das três grandes árvores do quintal, havia um microfone, um livro de poemas sobre a caixa de som e o violão de Nuno deixado no apoio. A pitangueira estava cheia, e numa tina de alumínio aguardava-nos um monte de jabuticabas, provavelmente colhidas do pé pelos meus primos menores, a quem tia Helena gostava de passar alguns rituais que se tinham perdido com o tamanho da cidade onde eles tiveram que nascer. Cristina fez comentários sobre como ela achava legal o fato de eu ter uma família cheia de artistas e lamentou-se em não fazer parte disso. Sorri para Cris e disse que agora ela podia fazer, se quisesse. Combinamos que ela apertaria meu ombro direito para me mostrar quem era o Sérgio, quando ele chegasse, mas não foi necessário: quando Hoiffmeister a viu de longe e se aproximou de nós duas, eu já sabia que era ele. Veio trazendo consigo uma mão cheia de sementes de jabuticaba, enquanto ainda chupava uma, com uma expressão alegre nos olhos. Era bem parecido às longuíssimas e pedantes descrições de Cristina: cabelos cheios e castanhos, cacheados demais, olhos mouriscos, escuros, nariz comprido, a pele morena, que ficou bem escura em contraste com a pele claríssima de Cristina. Os dois se abraçaram, e ela me apresentou a ele. A barba de Sérgio me roçou no rosto quando ele me cumprimentou – cheirava a um perfume elegante, masculino, apesar de possuir uma delicadeza estranha no rosto, que só é própria de homens corajosos e inspirados. Fiquei um pouco tímida sem entender por que, e, logo que tive uma oportunidade de sair de perto dele, puxei Cristina pelo braço para saudar os meus parentes e amigos de tia Helena que ocupavam a casa.

Acabamos na cozinha, onde tia Helena orientava minha prima Letícia a respeito de alguma coisa que haviam acabado de pôr no forno. Abrimos a garrafa de vinho que Cristina e eu trouxéramos e chegamos a conversar por um tempo, até que outras duas jovens amigas de tia Helena chegaram. Através da janela da cozinha que dava para o quintal, Nuno pediu uma taça de vinho e brindou conosco. Letícia olhou pela janela, disse algo ao irmão, virou-se para nós e as outras moças e pediu que não olhássemos agora, mas o Serginho estava ali. Percebi o desconforto no rosto de Cristina quando elas começaram a fazer comentários a respeito dele. Uma moça perguntou se ele era casado, disseram que havia desmanchado com a mulher, e depois perguntaram se ele não era gay ou um desses cafajestes que escolhem uma por semana. Uma delas sabia que ele estava morando sozinho, porque era vizinho de um amigo do namorado dela, e ficaram um tempo especulando a respeito de Sérgio, antes de começarem a tecer comentários sinceros demais sobre ele, enquanto espreitavam pela janela. Já viu ele cantando? Meu Deus, que homem bonito, não gosto da barba, ele devia fazer a barba, mas mesmo assim, ele podia vir sempre, não é? Será que ele vai cantar? Muita risada – Cristina foi abaixando o rosto para o chão. Cada um daqueles comentários lhe atingiam como uma espécie de insulto.

Apressei-me em tirá-la dali, e do lado de fora da cozinha ainda vimos as moças espiando o quintal. Cristina sentou-se num sofá, olhou para as folhas das árvores e para o vinho, sem colocá-lo na boca. Seu empreendimento agora parecia uma besteira, uma completa impossibilidade, tantas mulheres, os comentários... Quando me sentei ao lado dela, ela disse que precisava ir embora, que não aguentava mais um minuto naquele lugar. Pedi a Nuno que fosse à frente e tocasse uma música, como se isso impedisse Cristina de partir. Não soube qual era, nem prestei muita atenção; tentava convencer Cristina a ficar, mas ela já virara o vinho da sua taça dentro do meu copo e ia se levantando para ir embora. O que a prendeu foi a cena de Nuno arrastando Sérgio para o microfone e lhe metendo o violão nas mãos. Já haviam começado a aplaudi-lo – confesso que aquela bajulação dos saraus me dava bastante nojo, mas era a única coisa que impediria a partida de Cristina. Já haviam me contado que Sérgio era famoso pelas canções que compunha, mas aquela era a primeira que eu ouvia. Nuno sentou-se ao meu lado e disse para eu escutar bem. Não acreditei na voz que Sérgio tinha quando começou a cantar: era tão leve e tão fácil que passei a compreender um pouco do que aquelas meninas diziam. Havia algo de sobrenatural naquelas mãos deslizando sobre o corpo do violão, nos olhos que caíam em cima da plateia enquanto ele nos dava uma música que falava de mar. Nuno acendeu um cigarro, e me levantei, irritada pela fumaça, indo sentar-me numa cadeira vazia perto de Cristina, de modo que eu via Sérgio quase pelas costas. Movia-se de maneira meio idiota enquanto cantava, batendo o pé no chão ao ritmo da música, virando o corpo.

No momento em que me sentei e olhei para Cristina, senti o coração doer – vi um amor paralisado enquanto ela olhava para a música. Sem aquilo de “não querer um relacionamento sério” e “experimentar mais”, era tudo ausente; a forma como ela olhava para ele não tinha atuação alguma, ou qualquer máscara estúpida, mas um horror que era somente dos olhos dela. Vi o sofrimento de Cristina, enquanto eu já estava toda embebida naquilo, quando Sérgio terminou a música e pediram outra. Começou de novo. Eu olhava agora para ele: a camisa branca com listras azuis quase invisíveis e mangas dobradas sobre o antebraço ficava por fora da calça que parecia ser jeans de longe, mas era de um pano azul que lhe caía muito bem, um pano tradicional, antigo e eterno, cuja textura macia (ainda não sabia) eu sentiria posteriormente na palma da minha mão. Já pude imaginar os poucos pelos que ele tinha, deslizando em linha por aquela tradicional barriguinha proeminente dos homens felizes que ele sustentava, apesar de ser magro, e emendando com os pelos escuros no peito moreno, ainda ralos, como se ele tivesse demorado até os trinta para tê-los. Enquanto eu o destrinchava, Sérgio se virou de repente e olhou para mim até o fundo e continuou com os olhos fixos nos meus por cinco ou seis palavras, o que era muito tempo em uma canção tão leve. Depois, soltando-se devagar de mim, olhou de novo para o público e terminou sua música em mais alguns poucos versos. Senti uma dor horrível e demorei um bom tempo para voltar a respirar.

Tenho a impressão de que Nuno foi o único a perceber o que havia acontecido – ele olhou para mim, sorriu, e nunca mais falamos disso. Cris, enfim, resolveu ficar, e Nuno fez com que ela cantasse Valsinha com ele, depois de anunciar a todos (na voz mais alta que conseguira atingir sem chegar ao limiar do grito) como Cristina cantava bem. A voz era fácil, delicada, afinadíssima. Uns senhores não tiravam os olhos dela. Ajudei na cozinha, servi o escondidinho de carne-seca que tia Helena havia feito, mas, como minhas mãos ainda estavam tremendo depois do impacto de ver Sérgio me enxergando, derrubei no chão dois copos e me cortei quando estava juntando os cacos. Fui pedir a Cristina um “band-aid” (ela sempre tinha tudo dentro de uma bolsinha de maquiagem) e encontrei-a sentada no sofá, conversando com Sérgio. Exibi o machucado e ela mesma me fez o curativo. “Que foi isso, mocinha?”, Sérgio perguntaria, e eu falaria dos copos. Cristina começou a falar de mim – estudava comunicação, me formaria em jornalismo no próximo semestre. Falei de alguns trabalhos na cobertura de dois shows com um pessoal da faculdade, e tudo aquilo me pareceu tão medíocre que resolvi me calar. Ouvi a conversa dos dois por algum tempo e depois me retirei para dentro da casa, entrei no quarto de Nuno, comecei a mexer nas coisas dele. Depois, recostei-me na cama e adormeci.

***

Sérgio Hoiffmeister tinha um apartamento de quem morava de qualquer jeito, e com saudade. De qualquer jeito, porque ainda havia uma desordem agradável em tudo: quadros no chão, sofás furados, um copo de cada jeito, xícaras sem asa; com saudade porque o apartamento era velho, habitado por tantos outros e agora, apesar de ser dele, conservava restos anônimos de um tempo passado – ladrilhos, parede pintada da cor encardida que um desconhecido escolheu um dia, piso de tacos de madeira. Uma casa feita de erros. Cristina disse que, da primeira vez em que dormira ali, ele lhe dera o café do dia seguinte em um copo de vidro, hábito que a mãe não suportava. Quando foi morar com Sérgio, a mãe tampouco suportou, de modo que ela teve de se virar pela primeira vez na vida, e para viver sozinha. Uma bolsa de mestrado e algumas aulas de piano para mocinhas ricas ajudavam-na a pagar as contas, o condomínio, os livros que cresciam numa estante carregada e a cerveja que continuávamos tomando.

Ao entrar ali pela primeira vez, ouvi o barulho de água correndo, e Cris reclamou que eu havia chegado cedo demais e o namorido ainda estava no banho. A casa toda tinha o cheiro dele, um cheiro que eu sentira por dois segundos a cada vez da meia dúzia de encontros que eu tivera com Hoiffmeister na minha vida: uns shows, saídas com Cristina em espaços culturais construídos em ruínas de outras coisas, cercados de amigos e, em especial, uma pequena entrevista que ele me concedera no camarim de um teatro onde ele se apresentara. O perfume dele, desta vez, já ficaria mais forte depois do banho, e, como o apartamento já era marcado pela pele dele, me senti perturbada por aquilo novamente– o cheiro onipresente de uma pessoa que nos incomoda é como música insuportavelmente alta.

Seis meses antes dessa visita, eu esperava na portaria do meu prédio quando vi o carro de Cristina chegando atrasado pela primeira vez em tantas caronas. Quando entrei, a expressão no rosto dela explicitava algo que eu não consegui decifrar. Demorou cada segundo da viagem até o campus para me contar que havia passado a noite na casa de Sérgio. No fim da tarde anterior, eles tinham ficado conversando na sala de piano e depois ele a chamou para tomar um café em um lugar que não fosse a escola de música. Ela pegou o carro e dirigiu até o centro. Sentaram-se numa padaria velha (aquelas que costumamos chamar de “tradicional”, cheias de quitutes que nossos avôs foram os primeiros a provar) e continuaram a conversa por horas, uma conversa fluente, volumosa, que tinham vontade de continuar mesmo quando interrompida pelo silêncio da conta (três croissants, um sanduíche, um chá, um café, uma água com gás, Cristina guardara a nota). Cris se ofereceu para levá-lo em casa, ele resistiu, disse que não precisava, provavelmente fingindo; ela segurou a mão de Sérgio e disse algo como “você quer, eu quero, vamos logo com isso que eu estou começando a achar que você não gosta mesmo de mim”. Dirigiu com as mãos tremendo, enquanto conversavam sobre os CDs no porta-luvas. Sérgio chamou-a para entrar, Cristina chegou a guardar o carro na garagem... Sérgio quis passar um café, Cris insistiu que era tarde para tomar café. Ele ofereceu uma cerveja. Sentaram-se na sala. Ela estava com um coque complicado no cabelo, contou-me, ele começou a soltar-lhe os grampos, um a um, antes de levar aquela mão bonita que ele tem ao rosto de Cristina e beijá-la. Naquela viagem de carro, contou-me que se contentaria se fosse apenas um caso passageiro. Mentia, ao listar e me lembrar os benefícios da solteirice. Estava completamente apaixonada.

O interfone tocou enquanto Cristina me falava da mudança recente, sentada na sala onde eles haviam se beijado pela primeira vez. Chegara uma leva de amigos, também veio meu primo Nuno, com o violão. Enquanto, na cozinha, eles colocavam as cervejas para gelar, continuei na sala, sozinha, e ouvi o barulho de água cessando. A porta do quarto do casal estava entreaberta, e uma luz se acendeu ali – através da fresta breve, vi Sérgio passando com os cabelos molhados e a toalha amarrada na cintura; parecia-me ali, quase nu, exatamente como eu o imaginara antes. Virei o rosto, fui até a cozinha, cumprimentei várias pessoas, Nuno me contou alguma coisa que, provavelmente, era engraçada, mas eu não prestei atenção nem fiz qualquer esforço para rir do que todos riam. Sérgio apareceu em poucos segundos e lá estava o cheiro, eu pensei que ia sufocar quando ele me cumprimentou. Assim que ele se virou para saudar os outros, levei a mão até onde a barba dele me roçara o rosto e esfreguei a bochecha, como se pudesse limpá-lo de mim. Percebi como os cabelos dele começavam a ter um tom esbranquiçado, e pela primeira vez pensei na diferença de idade entre Cristina e Sérgio. Depois, eu perguntaria à minha amiga se a mãe não havia chiado por ela ter se comprometido tão rapidamente com um homem mais velho, Cristina sorriu, disse que o pai também era alguns anos mais velho que a mãe, e concluiu que talvez fôssemos, de outras formas, apenas a repetição dos nossos pais – afinal.

Depois de algumas cervejas, quis ir ao banheiro; Cristina me viu girando em vão a maçaneta do banheiro ocupado da sala e disse para eu usar o do quarto dela. Ela me conduziu até a porta entreaberta na qual eu vira Sérgio e encontrei ali a cama de casal com uma colcha colorida. A porta do banheiro estava na parede perpendicular a da entrada, Cristina acendeu a luz e reclamou da bagunça que o Serginho fazia para tomar banho. Fica à vontade, ela disse, e fechei a porta. Num cabide dependurado na parede, reencontrei a antiga calça que ele usara no dia do sarau. Toquei o tecido, e lá estava, exatamente como eu imaginara. Fui sentindo uma coisa ruim por dentro, a vontade de chorar veio e eu não consegui segurar quando uma lágrima se precipitou do meu olho e caiu pelo rosto que vi no espelho redondo à minha frente. Quando saí, encontrei Cristina sentada na cama, folheava um livro com uma expressão muito tranquila nos olhos e no corpo. “Lendo o quê?”, perguntei, sentando-me ao lado dela. “Não, só tô folheando. É um livro de contos. Sérgio e eu lemos um para o outro, antes de dormir, quase toda noite...”. “Que bonito”, eu disse, com medo do choro transbordar de novo. Encostei a mão no braço de Cristina, e ela sorriu para mim e me abraçou. Percebi, pela primeira vez, o que me condenaria ao fim daquela amizade – Cristina era realmente uma dessas pessoas destinadas a ter tudo o que desejavam. Conferi que ainda possuía aquelas mãos estranhas de pianista, os dedos compridos, unhas curtíssimas, sem cor, meio roídas. Lembrei-me, ela sempre tentava conter esse hábito, mas roer unhas era um apêndice de infelicidade; roer unhas não importava, tentar parar de roer unhas é o que se faz enquanto se vive os dias. Cristina estava, a meus olhos, calma como nunca fora e pronta para passar seu tempo do modo que desejava. Comecei a chorar.

***

Já não via Cristina havia quase um ano quando reencontrei Breno num ponto de ônibus. A conversa já estava rendendo quando começou a chover muito. Abri minha sombrinha e, levando-o por baixo, entramos numa lanchonete qualquer. Sentados numa mesinha enquanto o mundo tempestuava lá fora para depois deixar-se caindo numa chuvinha ridícula que duraria a madrugada toda, conversamos até escurecer. Num ponto, falei de Cristina e ele sacudiu a cabeça, talvez querendo mudar de assunto. Lamentou-se por um dia ter gostado dela. Fizemos um grande esforço para criticá-la: Tão ingênua, tão irritante, usara Sérgio para entrar no meio musical, não era? Bem óbvio – Breno disse que ligara a tevê um dia e estavam transmitindo um concerto do Sérgio, e no fim ele pegara a pianista pela mão (lá estava Cristina) e fora agradecer ao público com ela. Ela não era nada perto dele, era? Era algo, mas o nome dele era maior, sempre seria maior. Engraçado como antes Cristina era tão erudita, e agora cedia às canções de Sérgio, hem? Apesar de ele ter ouvido falar de uns concertos que ela andava fazendo e de umas viagens, não era mais a promessa de antes... Era? Enfim, resolvi apelar e dizer-lhe que me afastara de Cristina desde quando ela começara a namorar o Hoiffmeister. Cris passara a me subjugar o tempo todo e se comportava como uma princesinha, me tratava como se eu estivesse errada o tempo todo. Disse-lhe como eu havia aguentado a situação por um tempo, mas depois acabei me cansando das grosserias. Breno teve uma espécie de pena de mim, e eu não disse que era tudo mentira: Cristina continuava sendo um doce, às vezes um doce excessivo, e na verdade foi isso que mais me desconsolou – é possível odiar alguém por causa de um aspecto positivo? Não era uma podridão que havia dentro de mim que me fez odiá-la, efetivamente? Breno, franzindo o rosto, pediu permissão para fazer uma pergunta pessoal demais. “Sempre achei que você também fosse a fim da Cris”, ele disse, fez uma pausa, me olhou bem – “era?”. Neguei. Breno riu, pediu desculpas, eu ri também, disse que não precisava se desculpar. “Deve ser fantasia da minha cabeça, sei lá”, ele concluiu.

Depois daquela conversa com Breno, pensei em Cristina de maneira tão obsessiva que aquilo passou a turvar a minha visão. Eu havia sentido uma espécie estranha de alegria certa vez em que ela disse querer nutrir algum interesse por mulheres, logo depois de um breve desencantamento por homens ao término com Henri. Cris chegou a me perguntar se eu tinha algum olho por meninas, e eu disse que não. Meninas podiam fazer parte do “experimentar mais”, percebi que eu podia ter experimentado e poderia estar em uma condição mais alegre agora. Mas isso não foi uma oportunidade perdida, nem sequer foi uma oportunidade, porque eu não estava ao nível do que Cristina era e do que Cristina queria. Cheguei a sonhar duas vezes com a maneira que Sérgio me olhou naquele sarau e aquilo me deixou confusa por dias. Percebi, aos poucos, que o mundo das caronas havia sido impossível de manter. Fui me dando conta de que a vida parecia deixar que algumas pessoas alcançassem livremente o que queriam, enquanto outras se contentavam com bastante mediocridade e ainda achavam que podiam fazer algo mais nobre. Tudo o que aprendi sobre música de verdade foi no carro de Cristina, e qualquer tentativa de arte para mim sempre fora uma grande decepção.

Talvez este pequeno relato confuso sirva para alguma coisa a alguém, porque, para mim, já não serve para nada; é o único e o último que me dou o trabalho de escrever. De qualquer forma, aceitei o que me foi dado e entendi que me afastara de Cristina para não sofrer com o que eu não podia ter – e mesmo assim, não entendia muito bem por que sofria e o que queria. Trabalho numa revista de arte e cultura, e, quando se falou certa vez de Sérgio Hoiffmeister, pedi férias morrendo de medo de pegar uma segunda entrevista. O rosto dele apareceu em uma dessas páginas, olhos mouriscos, nariz grande e a barba áspera com fios brancos da idade que se ia passando. Nunca aprendi a dirigir. Breno e eu saímos poucas vezes antes de assumir o namoro e nos apaixonamos pela rotina de espectadores em um meio cultural. Ele partira para o mestrado, e nos casamos depois que ele completou o doutorado: acabou virando professor. Agora, acredito em destino. Por muito tempo, quis que ele lesse algo para mim quando nos deitávamos para dormir, mas sempre estávamos tão cansados que resolvíamos cair no sono antes. Então, resolvi me contentar com o que me dizia respeito.

terça-feira, 14 de junho de 2011

O Dente do Louco (2)


Faço isso para que ele não arranque os próprios dentes. Às vezes eu arranco sim um dente dele, e ele sofre. Faço isso para que ele não arranque os meus. Ele desliza na minha boca úmida e belisca, eu cuspo ele pra fora gritando as palavras que ele gosta de ouvir. Às vezes, também, eu mato o louco: recuso a tentação de ir agora em direção a ele e obedecê-lo. Preciso esperar isso. “Vê, a linha da terra?”, ele diz, ressurgindo sem dor. Ele começa a crescer de novo como uma erva nas próprias vísceras. “Você sente na ponta da língua uma coisa escura e asquerosa? É tinta. Livre-se disso. Cadê sua palavra, hem? Fale comigo!”, diz o louco. Ele coloca o lápis de volta na minha mão e diz que há mais santidade no meu ato do que qualquer reza. Preciso acabar com isso logo, penso. “Então acabe”, diz o louco. Permaneço. “Diga logo”, ele insiste. Sim, vou dizer tudo. Continuo calada. Ele olha para mim. “Lá vem o tempo”, diz o louco, “você quer acabar igual a mim?”. Eu rezo e falo com a terra e registro a minha palavra. Assim que eu escrevo o nome do louco, o louco adormece.

terça-feira, 7 de junho de 2011

O Dente do Louco (1)



Ouço o que o louco diz. Ele ameaça tomar o lápis da minha mão e diz: “cinqüenta e sete!”. Ele quase me faz tropeçar na calçada quando me faz olhar para uma nuvem no alto. A caminho do ponto de ônibus me encontro com Daniel em frente ao louco. Eu estou voltando para casa, Daniel está indo embora. Cumprimento a timidez dele com um abraço quase beijo no rosto (“agora estamos ouvindo música”, diz o louco), a saudação híbrida daqueles que têm pouca intimidade. “Daniel!”, diz o louco. Mando ele se calar. Daniel está de óculos escuros e carrega livros; pergunta se eu já revelei as fotos daquele dia. Digo que ainda não, mas que vou fazer isso hoje se eu tiver tempo. Eu vejo o louco que Daniel tenta esconder com o corpo. Daniel ouve muito o louco dele e finge não ouvir e se cala quando eu pergunto se o louco existe. Às vezes, quando se sente próximo de mim e confia em mim, Daniel sussurra as coisas que o louco dele diz. O louco dele diz: “Esquerda! Nanquim! Quadrado! Pedaço de pano!”. Eu vejo o louco que fica atrás da cabeça dele. O louco dele é bom. Ele tem vergonha do louco, ele não fala do louco. Quero que meu louco seja bom também. Daniel leva um cheiro de perfume forte que faz o louco ver o banho que ele tomou em casa. “A que horas Daniel acordou?”, o louco pergunta e exige que eu pergunte isso a Daniel. Mas deixo Daniel despedir-se de mim com sotaque e retomar o seu caminho. Penso que a mulher de Daniel também tem um louco, mas o louco dela é mulher. Penso que vou para a terra pura de Daniel um dia, e o meu louco irá comigo para berrar cada coisa que vê.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Convite - exposição no Atelier Arte Nova: Dê

Minha companheira de Atelier Dê Vasconcellos, que abre hoje sua primeira exposição individual, pediu que eu escrevesse um texto sobre os quadros dela. Fica o convite, e em seguida, o texto.




Eu te conto um segredo

Uma imagem que evidencia algo, que busca a expressão de um objeto de modo obsessivo, às vezes pode atravessar a linha do exagero e permanecer ali sem timidez. A carne se materializa para fora da folha, quase disponível ao toque, gerando uma amostra da volúpia ou do nojo que geraria a própria carne nua e viva diante dos nossos olhos. A floresta que se ergue fechada nos impede de enxergar o que está à frente, por mais que olhemos para o que está acima ou abaixo de nós. O segredo, então, torna-se imperativo e indecifrável aos olhos. As flores e a mata podem lembrar os cadernos de ilustração de algum naturalista que se embrenhou em algum lugar que não lhe dizia respeito a fim de registrar um mundo novo e diferente. Ele registra do modo exato que lhe ensinaram, ao desenhar as orquídeas do tronco contra o fundo vazio do papel branco. Ele pesquisa qual planta é venenosa, qual fruta é boa de comer. Só que aqui não há marcas de caule, raiz, pétala, folha, não há sinal das funções medicinais da planta ou da localização geográfica estrada de onde se retratou a paisagem. Não há nem mesmo o nome científico que seria dado à espécie ilustrada: resta o vazio nas bordas e do através. O segredo silencia. O corpo escancarado em preto e branco, coberto pelo véu, também relembra algo que seria exato, mas contém algum hibridismo sem solução: o corpo masculino, que recebe uma lisura de corpo de mulher, possui um véu: tecido de transparência forjada, exclusivo ao rosto de Penélope.

domingo, 1 de maio de 2011

Notícias numa fita

(Ontem de noite fui ver o trio Por um Passado Musicável - Notícias numa Fita da Luiza Brina, César Lacerda e Luiz Gabriel Lopes que tocou pela segunda vez aqui em BH. Da primeira vez em que os vi, cheguei em casa e esbocei uma historinha num papel que acabei perdendo. Ontem porém, voltei-me à memória do que eu tinha escrito e das canções novas que eles trouxeram e saiu esse texto aqui, batizado com quase o mesmo nome que eles se deram, meio contaminado pelas boas canções que eles mostraram para nós)


Sim, ver como o seu braço ia ganhando o braço inteiro do violão fazia arrepiar meu braço direito; exatamente, você curvava o corpo para cima dele, abraçando assim, e depois retornando como se apenas fosse possível ver de longe. De perto, só tateava, e sabia o exato lugar das cordas como aqueles cegos cujas casas permanecem a mesma coisa por toda a vida e cada mudança na rigidez é feita por uma presença estranha. Pensei em te escrever um cartão de ano novo relembrando alguma trova seca, imitando a letra de uma música, mas já te falei o que acho do dia trinta e um de dezembro, já te falei o que acho desse dia médium – é o único dia em que se pode acreditar que o futuro é visível ou desejável contudo na verdade, estamos onde estamos por causa da festa enquanto outros parecem se preparar para uma Grande Viagem ou se aprontar para uma Grande Mudança com calcinhas novas e capas de chuva. No final a noite sempre acaba sendo boa e patética, nesta ordem. Quando esse dia aconteceu da última vez você não estava mais aqui, trinta e um, certamente reclamei do calor quando saí de casa e olhei para a rua meio vazia meio cheia, inconstante... Ao parar na ponta da calçada, vi que perto de onde o lixo fica para ser recolhido, havia uma pilha de fitas cassetes deixadas junto a uma caixa de luz. Pela disposição simultaneamente cuidadosa e desprendida de uma matéria tão sentimental, vi que a pessoa que as deixara ali tivera, qualquer dia, certo carinho por elas, ao mesmo tempo em que este indivíduo precisava sim fazer grandes mudanças na vida e desprender-se de bens materiais que carregavam lembranças e energias ultrapassadas. Foi uma ordem da cartomante, da terapeuta ou da mãe dele para o ano novo, sei lá, por favor não me deixe ir tão longe. Derrubei a torre e revirei com o pé a pilha decadente. Havia poucas informações sobre anos, artistas e faixas nas caixinhas barulhentas. Deixei as fitas espalhadas ali, no chão, sem ânimo para abaixar e catar. A pessoa que as abandonara assim provavelmente não sabia se deixava aquilo no saco de lixo de plástico para ser reciclado ou no lixo comum (as etiquetas eram de papel, escritas com tinta preta, azul, vermelha ou verde, o que estivesse à mão na hora de gravar) e por isso deixou ali, como se o cara que recolhe o lixo tivesse que resolver os problemas de alguém que não resolve os próprios desprendimentos. Fiquei com um pouco de dó e quando voltei para a casa, enquanto tudo perfumava a tantas ceias, me escondi para buscar em caixas amareladas fitas com a voz, os braços, o violão que houvera num passado musicado, ato proibidíssimo aqui em casa, porque ano novo é olhar para frente você sabe como é. Vejo as legendas e percebo que a minha letra mudou com o tempo. Ficou corrida. Deslizei pela casa e encontrei aquela vitrola com o toca-fitas acoplado. Senti uma espécie de vertigem feliz quando vi que ele ainda vinha à vida quando colocado na tomada, mas morri quando percebi que as caixas de som haviam ficado na sua casa e eu nunca me lembrei de pegar. Neste ato eu e você nos comunicamos em silêncio, de longe, e eu pensei em te ligar e desejar feliz ano novo, talvez fazê-lo e contar esse caso estranho. Mas fiquei imóvel. Quase me ajoelhando no chão, botei pra tocar a fita que tinha você gravado e fui escutando o ruído da máquina funcionando e sentindo o seu cheiro dentro do cheiro contaminado que as coisas velhas têm, pensando em quanto tempo a rouquidão da poeira conseguiria afogar suas notícias, como se assim ao longe em tempo e quilômetro, através da passagem da fita, eu pudesse falar com você.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

outra carta forjada



Ana, tem sido exatamente assim. Ontem não me senti bem na galeria (muita gente, muito calor, um cheiro de tiner, e muitos quadros bonitos, parabéns parabén parabéns!) e subi as escadas com L., e tive o que acabou sendo, acidentalmente, uma dessas noites lúcidas demais que continuam no cérebro durante vários e vários dias, ou anos, ou meses: noites que anoto pra virarem ficção quem sabe. Não bebi uma gotinha de álcool sequer (apesar do galão de cinco litros de pinga que alguém tinha levado e vinho em copo de plástico e taça de champanhe, percebeu como algumas pessoas estavam bebendo em xícaras também?) mas eu estava meio inebriada pelo cheiro das árvores e morte que fica de vez em quando em casas antigas. L. contou que aquele prédio havia sido uma escola de engenharia, e em seguida, me narrou dois ou três sonhos que ele teve e eu anotei como se fossem meus, dos quais também me aproveitarei alguma hora, ele sempre tem uns sonhos bonitos com água, e outros sonhos completamente abstratos, feito música. L. estava ligeiramente mais bonito que o normal, e usava uma blusa preta que parecia ser azul-marinho, e nós conversamos sobre as cores. Ele precisa pintar uma parede de um azul extremamente específico e nós vamos estudar francês juntos aos sábados. Havia um piano desafinado ali no segundo andar, e logo após ligar para o irmão mais novo, L. experimentou umas notas (condenando com cara de limão: desafinado!) e continuou falando de uma composição da qual ele me havia dito na mesma tarde após um almoço de taioba feijão e vinagrete, tem sido assim... Balbuciei a ele duas, três palavras a respeito de paixões e ele me olhou com medo como toda vez em que eu falo a ele de um desregramento meu. Mas de repente começo a acreditar que há um entendimento mudo toda vez que digo em voz alta a alguém que eu ultrapassei uma linha involuntária, um lugar onde as pessoas têm vergonha de ir, vão e nunca dizem que vão. Vai ser bom para nós duas sair dessa cidade por um tempo: lembre-se de como é bonito o pátio daquela casa, lembre-se que no piso do primeiro andar há dois azulejos que não obedecem a ordem dos outros. Faz tantos anos que estão ali... Poxa, menina, tenho tanta coisa a te dizer a respeito das paixões, e veja só, amanhã é sexta-santa, tem uns sete anos que não ponho carne na boca e nós viajaremos juntas cercadas de mapas, lenços e violência doméstica, parece que é mais um desses sinais literários que aparecem na vida-comum, sei não. Você é mais desconfiada que eu e eu sou mais ingênua que você, sempre, ó, boa companheira de viagem. Estamos juntas.
Gran-beso,
Laurinha.

domingo, 17 de abril de 2011

carta forjada



Às vezes sinto que me afastei tanto de uma parte do mundo que simplesmente tornou-se impossível voltar.

Vou tentando entender a profundidade das coisas. Faço este movimento como se registrasse umas pequenas mentiras num mapa.

Busco
um foco que eu nunca tive,
mas sob o qual me acostumei a viver.

Talvez, na verdade, eu tenha uma grande preguiça de voltar.
Ainda assim, não consigo entender/gostar/concordar com a palavra "superação". Não gosto de mentir a respeito dessas coisas. Você mesmo me disse que o mínimo que podemos oferecer aos outros é a verdade.

E é meio estranho, até peço desculpas, eu não vou poder te dizer esta verdade porque ainda não sei o que está acontecendo.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Cascalho (VI)

Eu posso tolerar a sua dor, posso tolerar a sua carência, posso tolerar a sua injustiça, posso tolerar a sua solidão, posso tolerar a sua vontade, mas não posso agüentar de forma alguma a sua maldade. Sua vontade de me machucar. E menos ainda o resultado de sua fúria na minha pele.

Ivone não queria que eu deixasse você escapar. Que bom partido você era: um homem estrangeiro, capaz de outra língua do mundo. Ivone tirava outras de minhas obrigações na casa para que eu me ocupasse somente e unicamente de você. Eu dizia a ela que um homem jamais ocuparia tanto tempo livre que ela me dava, o que fez com que os arranhões e hematomas começassem a brotar. Poderia dizer que nem um cachorro mereceria o que você fez comigo, e creio, não posso dizer isso de um cachorro, porque todo ferimento aqui atribui-se à raça feminina, você descontava em mim a dor que descontaria numa mulher que hoje se encontra morta. E o mais estranho é que você se desculparia dez minutos antes de voltar a fazê-lo.

Então você jantou e partiu. Ivone não conversava a sua língua, mas ela pediu para você ficar. Você se desculpou e não ouviu. Ivone sentou-se, deixou o pano de prato dependurado na cadeira e olhou para mim com incredulidade.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Cascalho (V)

Que amor, que não o seu, deixaria essas marcas de mãos pesadas nos meus joelhos e pulsos, marcas de amor pesado, que não sabe outra coisa se não sê-lo bem, amor de criança, amor de mordida. Porque o mundo fez com que você se derramasse enquanto você acha que está maior que o mundo que habita: ou fora dele: mas você habita, continua andando na rua da minha casa ou numa rua a mil e seiscentos quilômetros de minha casa noutro país,
saiba, pois,
esta rua ainda é uma rua.
A sua vida não é simples. Ela não enxerga de longe os objetos raros que ela gostaria de ter (ou que ela faria questão de ter, apesar do fato eterno de não possuirmos nada verdadeiramente, nunca). Você mete as mãos e destróis, e depois tenta reatar algum pedaço e logo perde o interesse, disfarçando a culpa da quebra. Como se ter fome fosse capaz de resolver os seus problemas – ter fome como se a fome fosse um sentimento voluntário. Só posso te chamar assim,
de fome
de asco
de cascalho.

domingo, 3 de abril de 2011

Cascalho (IV)

Guardo comigo três hábitos que você me ensinou: o de fumar, que facilita minha vida nos piores momentos; o de escutar a mesma música centenas de vezes (como se ela não fosse música, como se ela fosse ar) e o de escrever as coisas num registro de sonhos e cenas, como se a verdade do mundo fosse passível de coleção. Ainda sinto, às vezes, quando me deito de costas, o cascalho do chão na minha pele, e algo de pêlo de homem em mim. Sentir os pêlos: porque os seus eram tão loiros que mal dava para vê-los pela pele abrasada de sol. Você deixava o desespero escoar em mim e depois levantava-se, envergonhado, apavorado, e me perguntava se tinha sido demais. Eu olhava para os seus joelhos feridos e sentia as minhas costas esfoladas. Eu olhava para o que estava virando o meu corpo depois de quando você chegou.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Cascalho (III)

Procurava por mulher? Sim, procurava por uma delas, a Amanda. A grávida que morrera há três dias. Daí passou a me odiar porque fui eu quem deu a notícia. Não comprou. Teve que ir ao cemitério atrás da igreja, a grama toda suja de areia e ver o nome da mulher, o jazigo da família, a lápide nova, e fazer um gesto dramático como cair com os joelhos no chão e chorar. Abrasivo. Te sirvo um café enquanto você ainda chora. Pergunta se não tem açúcar, te dou um pedaço de rapadura. Se parece com uma pedra, ou outra coisa dura sem coração algum.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Cascalho (II)



Você veio da última vez procurando por uma mulher – não alguma mulher, mas uma mulher específica. Há um anos na feira você reaparecia, sempre estrangeiro, enquanto eu estava fazendo compras para a casa de Ivone. Lembro-me do seu rosto: ele é branco, quase rosado, e não sabe sorrir para as fotos. Tem a bravura de um estrangeiro. Me pergunta, em sua língua, o que eu estou fazendo ali. Digo, sou daqui, pertenço a esta cidade, nasci aqui e volto quando há tempo para ficar livre com minha família. Falo a sua língua de estrangeiro enquanto tenho castanhas e frutas nas mãos – torno a sua palavra minha quando a digo com meu sotaque cheio de rompimentos. Parece estar emocionado por me encontrar ali, no perfume dos temperos ou de cavalos, te convido a minha casa. Você tem uma mochila nas costas. Pergunto se tem onde pernoitar.

domingo, 20 de março de 2011

Cascalho (I)

(Retorno ao blog agora que longas escritas parecem ter se diluído: nas próximas semanas, posto aqui algumas partes de uma pequena história que estou escrevendo aos poucos, na medida que o tempo permite as palavras)



Que estranho foi deixar cair a fotografia de uma página marcada de um livro lido enquanto organizava as minhas coisas de cima da mesa de Ivone: a fotografia caiu com a face para o chão de madeira, como se algum destino complacente pedisse para eu não olhar o que havia ali. Não olhe aí, ele diria, jogue fora, deixe no chão, mas jamais olhe.

Pois, até o momento em que a mão não resiste e puxa para si, para perto do rosto um pedaço do rosto antigo, apenas o rosto, o seu, não diminuiu o susto de um rosto verdadeiro apesar da imagem não ter carne – aqui, aqui estão, os olhos, o sorriso que não sabe sorrir direito; que estranho, deixar a fotografia cair e sonhar com você na noite seguinte: sonhei que estava na cozinha com Ivone e que estava fazendo um doce, algo de damasco ou abóbora. E você apareceu então na minha casa, de carne sonhada, e dessa vez você dizia coisas sobre o jantar, sobre a geladeira, sobre os meus sapatos novos, sobre o meu cabelo preso, sobre livros inteiros, e lá, o pote de mel sobre a bancada da cozinha (não havia nada de açúcar branco e puro na casa de Ivone) você provavelmente queria meter o seu dedo ali e provar um pouco do gosto antes que o doce de verdade ficasse pronto.

(De fato, pior ainda que sonhar contigo, é sonhar que se tem sapatos novos e de repente despertar e ver que não há sapatos novos mas os mesmos sapatos velhos de sempre. Você não está mais aqui, nesta cidade, repito para a janela, de madrugada, e sigo procurando por você nas luzes apagadas)

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

ainda falando da pausa

(Gostando da idéia de publicar e-mail em blog, a Ana, minha interlocutora, respondeu meu e-mail e colocou ele AQUI. Acabei respondendo o dela também, veremos onde isso vai dar...)



Aninha,
Acho que o "clique" começou naquela noite em que nós assistimos o quarteto do Messian lá na fundação, lembra? Foi aí que eu escrevi aquele conto do quarteto para o fim do tempo e depois fui acumulando idéias para compor o romance que teve aquele conto como origem. Só que depois de escrever um caderno e meio de idéias, eu meio que me senti "pronta" para escrever aquilo, e comecei a escrever devagarinho, trecho por trecho, num caderno, quando eu estava lá em Nova Iorque. Até a noite em que você disse para mim do MÉTODO e daí rolou o clique e eu entendi que eu precisava sentar e acabar com aquilo de uma vez, se não, como você disse, eu ia ficar fazendo mil versões e não conseguiria terminar nenhuma. Percebi que se eu fizesse tudo de uma vez, de versão em versão, eu ia sofrer e fazer bagunça demais. Então, acho que esse clique é mais uma decisão do que qualquer energia cósmica: Estou com tempo livre até março, então, porque não terminar isso agora? Faltam apenas três capítulos e a primeira versão estará pronta. É uma versão fraca, cheia de buracos, mas é uma visão do todo escrita, de modo que eu não vou precisar me preocupar com minha memória ruim na revisão. Pra mim tem que ser igual tomar remédio ou injeção: é de uma vez. Ou como diz a Júlia, "literatura de guerrilha".

Que legal esse seu sonho, Ana! Esqueci de te contar uma coisa. Outra noite sonhei que você estava fazendo uma performance na praça da liberdade (sabe aquela parte na frente da biblioteca, onde ficava o Fernando Sabino e seus comparsas?). Acho que é porque eu tô terminando de ler a Odisséia. Você encarnava a penélope, levava uma cadeirinha até a praça, tinha um monte de linhas e tecidos, e começava a bordar. Bordava até escurecer, e quando escurecia, você começava a desfazer o bordado. Depois, se levantava, juntava suas coisinhas e ia embora. Me lembro que você não deixou ninguém tirar foto daquilo. Então: estava tudo perdido e isso me deu vontade de bater em você no sonho. Você disse que o momento tinha que ser o momento, que não dava pra ficar aprisionando ele. Enfim: essa tristeza mansa, que você disse estar sentindo de vez em quando, vou roubá-la pra pôr no livro, pode? A Eira, que eu acho que é a personagem principal do livro (acho, porque eu ainda nao sei sobre o que esse livro se trata de verdade, juro pra você, ele é todo manchado) vai falar dessa tristezinha. Ela é uma pessoa extremamente sozinha, coitada. Da dó de ver. Acho que isso é o que mais me incomoda na historia. Quando eu terminar de escrever, talvez eu consiga saber do que ele se trata. Mas isso é sempre a última coisa. Eira nao sente a sua dor no estômago, mas ela tem uma perna ruim (dessas que doem no frio ou quando está para chover), fruto de um acidente de carro que ela teve. Mas, o que é essa tristeza, hem? Ela é meio azul, na cor dos desenhos que você tá fazendo, ou ela é gutural, mais vermelha, ou cinza, ou negra?

Acho que muitos sonhos à noite são um bom presságio. Sério.

E eu gosto dos seus emails longos, são meio que um descanso. É bom conversar contigo, Ana, você entende, e eu não me sinto mais sozinha. Estou um nojo de anti-social, e sabemos que Laurinha não é assim. Ainda estou meio ansiosa, e bastante emocionada. Me lembro daquele trechinho da história do fim que você escreveu num post-it aqui em casa, quando a gente estava fazendo festa no meio do ano passado, bebendo lá em cima: "Não existimos. Tudo nos afeta". É isso. Muito obrigada por toda sua compreensão, você é um docinho. Em breve nos veremos,
Laura.

Obs.: Quando eu disse que eu estava escrevendo devagar, antes, esqueci de acrescentar que chega um ponto em que tudo estoura. Que as idéias ficam presas na cabeça da gente e predominam acima de qualquer pedacinho de cotidiano, ou qualquer outra história que eu gostaria de escrever. É bem como quando a gente tem aquela casquinha de machucado, e fica se esforçando para não arrancar...

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Pausa para um novo livro

delaurinha cohen
para: Ana Paula Garcia Costa

data: 14 de fevereiro de 2011 09:33
assunto Re: história da água
enviado porgmail.com

Aninha, valeuzão. A coisa que eu mais queria agora era terminar esses contos antes das férias terminarem, mas sei lá, sabe quando um trabalho te "chama" de uma maneira tão intensa que o mundo todo fica pra trás? Rolou isso com o livro novo. Nunca tinha acontecido de maneira tão forte. Até a minha acupunturista disse que eu estou num momento cósmico muito intenso (???). Mas eu acho que estou bem (na medida do possível). Credo Ana, esse trem de escrever dá uma zica na gente. Ando meio ansiosa, tendo umas insônias (eu que durmo igual neném...), umas palpitações, na quinta-feira eu simplesmente não conseguia parar de chorar, na sexta o Lucas deu uma segurada na minha onda, ficou conversando comigo, fiquei ouvindo o Igor tocar piano e depois fui ouvir Stravinsky numa salinha simpática lá na escola de música e melhorei muito. Mas tô quase QUASE terminando a primeira versão do livro, você acredita? Em menos de duas semanas. Acho que até sexta tá prontinho, fresquinho quentinho. Mas vc sabe né, é aquela versão cheia de buracos. O método funciona bem pra caralho assim. Aliás, foi vc quem disse "MÉTODO, Laura Cohen" e naquela noite no aniversário da Carol e deu um clique na minha cabeça e eu pensei que se eu obedecesse ao meu método, eu conseguiria sair da aflição de reescrever o livro mil vezes e terminar uma versão de cada vez, sem ficar me atropelando. Desde então escrevi 78 páginas (quase) sem parar para respirar. Está sendo excelente, sério. Quando eu disse que tô cansada de ouvir os conselhos que as pessoas me dão, eu estava falando dos conselhos que as pessoas me dão a respeito da minha falta de atenção no mundo e gente que reclama do meu sumiço, e da maneira que eu estou aérea desde quando comecei a escrever esse livro. Não tem nada a ver com você a minha canseira. Tô me achando egoísta até, mas sabe, é óptimo me dar um espaço de vez em quando pra fazer minhas coisas sem culpa. Sumir pra dentro é bom. Enfim: acho que não apareço no atelier essa semana, snif, snif. É aniversário do tio né? Vou escrever um cartão pra ele.
Beijocas,abraçocas,
Laurinha.

Obs:1- tomei pau no exame de direção. Foi na sexta, um dia depois de surtar total.
2- Se você quiser ler o livro novo, você pode. Pouca gente pode. Só a Júlia leu até agora.
3- Gostei desse e-mail, vou postar ele no blog como uma desculpa para a paradeira que está lá. Vê se posta no seu.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

a vida normal (I)

1.
Eu estava tentando encontrar um endereço à pé, e passei de novo pelo bar onde eu te conheci. Estava cheio aí pelas seis da tarde, a hora do pico, e na frente, na praça com a igreja havia um casamento cheio de gente. Ainda claro (o sol está indo embora às sete horas da noite, o que você tem feito com tanto dia?), vi o carro com a noiva chegando, e o vestido dela não era tão pesado assim, e daí eu pensei que eu me casaria no verão. Parado entre o bar e a praça, me esqueci de onde eu estava indo (mas me lembrei até onde eu estivera) e tive que olhar o endereço e o nome da mulher no papel, e conferir o nome das ruas na esquina do bar cheio onde eu te conheci.



2.
Aquele rapaz, Miguel, (é este o nome dele, não é?) estava no concerto de domingo, não estava? Acho que ele passou por mim... – não, tenho certeza de que ele passou por mim e eu me lembrei de você falando que tinha terminado um relacionamento tão longo, meu deus, fiquei imaginando que história bonita isso foi. Ele é tão intenso assim, ou foi só impressão minha? Quando ele passou por mim, os segundos duraram mais que o normal, quando eu o reconheci e vi aquele rosto de linhas retas, e um sorriso que sabe mais do que fala, uma corrente escondida na gola da camiseta branca; indicando talvez um escapulário, como o que Augusto esconde... Enfim, que curiosidade me deu em te perguntar. Meus olhos seguiram a nuca do Miguel, e ele se perdeu, não sei, sumiu no meio da fila cheia de gente esperando para entrar no auditório, e a imagem dele passando por mim e não me vendo enquanto eu o enxergava e tentava ver adentro deixou minha curiosidade doente, e eu comecei a maquinar as coisas. O mais esquisito é que na semana anterior, eu vira esse rapaz tocando piano num palco, e você sabe, ele toca de maneira monstruosa... E como ele estava arrumado, de camisa e sapatos, e agora, de camiseta e bermuda e chinelo, se entregando a uma manhã musical qualquer como alguém que vai, não parecia louco como me pareceu no palco, antes. Vocês, não entendo, o instrumento está lá, sólido, vocês vão e tiram uma tempestade de dentro dele.



3.
Você não era assim, falante. Aprendeu comigo, foi? Já almoçou? Está enjoado? Cansou-se de mim? Não vou falar mais. Está tarde. Há uma beleza inevitável hoje nas coisas que nós interrompemos, não há, hem, Miguel? Nós não vamos ficar juntos. Aliás, nós nunca ficamos hem. Parece que só agora conseguimos oficialmente começar a “vida nova” que se difere daquela loucura, meu deus. “Isso era errado”, é você achava isso errado, hem, Miguel, você achava que beijar era errado. É errado ter uma boca. É errado ter mãos com dedos que sentem as coisas. Os pêlos no corpo e unhas que crescem. Vamos comer o almoço. A sua voz já não era tão encorpada quando dizia que era errado, mas ficava no tom perfeito quando falava de perto, assim. É para ir além da sanidade do corpo. Meu corpo – a sua outra alegria.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Farmácia



Meu pai fez uma operação dentária e teve que tomar anestésicos, analgésicos e um antibiótico. Ele faz um bochecho discreto e dolorido com água oxigenada e antiséptico bucal. Eu estou com uma alergia no olho que me impede de colocar as lentes de contato novas. Tenho que pingar um antiinflamatório e um antialérgico três vezes por dia durante dez dias. Quanto aos florais, continuo tomando quatro gotas antes de tomar café, antes de almoçar, antes de jantar e antes de dormir, por recomendação daquela acupunturista que diz para eu comer coisas amargas quando eu estou triste e visualizar uma flor branca todas as vezes em que tenho sonhos demais durante a noite. Há também uma dor misteriosa no meu pé esquerdo e nos dedos de ambas mãos - as mãos, costumam doer quando eu escrevo muito ou pinto muito nos fins de semestre, principalmente a direita. Porém, essa dor que vem nos últimos dias foi algo que eu nunca havia sentido antes. É algo, que ao invés de me importunar e me impedir de fazer as minhas coisas, dá uma estranha sensação de vitalidade.






terça-feira, 25 de janeiro de 2011

O que fazer com as cartas que eu não mandei (I)



Ana Paula,
Encontrei algumas cartas que eu escrevi faz tempo e que não enviei nem joguei fora, preferindo guardá-las, sei lá porque, dentro da minha escrivaninha. Hoje estou tentando me livrar dessas coisas velhas. Acabei escolhendo uma delas (datilografada, sem data, escrita a um amigo) e recortar palavra por palavra, metade da frente, metade do verso, para depois enviar para outra pessoa que não é o destinatário original. Escolhi você. Espero que entenda.
Um beijo,
Laura.












domingo, 9 de janeiro de 2011

A Terça



Hoje de manhã vesti por acidente ou por impulso a blusa que eu estava usando na noite em que Isidoro me apresentou a você – guardo, também por essa sorte equivocada de acidente, a memória estranha da roupa que eu estava usando naquela noite, a saia preta que vai bem com tudo, os sapatos de salto e a blusa preta e branca de uma estampa geométrica difícil de decifrar (são pássaros voando), uma dessas blusas que normalmente reservamos para ocasiões especiais, e não para o uso cotidiano que eu realizei hoje ao sair de casa para um dia normal. Estava com os cabelos presos, apesar de Isidoro sempre dizer que os preferia soltos, e era uma noite mais ou menos quente, mais ou menos fria, o que me fez pegar um casaco e colocá-lo na bolsa antes de sair de casa. Quando fomos apresentados, acho que eu já estava com o casaco no corpo, era tarde. Fiz que Isidoro levasse também sua jaqueta, mas o dele passou a noite toda dependurado numa cadeira de dentro do bar ao qual nos arrastamos depois do concerto. Normalmente quando as noites são douradas ou hesitantes, suspeito de algo que vai acontecer, numa espécie de marca de destino. Eu me lembro que eu estava em uma mesa tão cheia de gente, e a noite enturvara, assim, como se houvesse uma neblina no ar entre os meus olhos e o rosto das pessoas, e a luz amarelada das lâmpadas explodia em todos os cantos. Segundos antes de Isidoro encostar as mãos nos meus ombros e me dizer que eu me levantasse, eu olhava para Joan de pé na calçada, Joan, aquele rapaz catalão ou basco (eu me esqueço) que estava por aí naquela época, morando na casa de um ou de outro, e percebi de longe o tanto que o rosto dele era feminino, as bochechas, o nariz, o sorriso, as mãos, até mesmo a voz e o jeito de fumar me pareciam serem pertencentes apenas a uma mulher. Até mesmo o nome Joan é terrivelmente dúbio, conheço algumas moças que se chamam assim. Isidoro reafirma que eu nutro uma fascinação crônica e sem motivos por gente indefinida; e se tratar de uma pessoa rude ou distante, como o Joan é, eu gosto mais ainda, para poder manter a distância necessária de uma espiã. Eu olhava para Joan e então Isidoro veio, falou para eu me levantar que ele tinha que me apresentar a uma pessoa.

Você estava do lado de fora do bar, na calçada, sentado numa mesa repleta de homens. Ficamos de pé durante a meia hora em que comigo. Meia hora? Não me lembro do tempo, não me lembro da linha, não me lembro das coisas funcionais e ordenadas, que são feitas para a recordação prática das comunicações. Recordo apenas aquelas coisas que facilmente se perde o dom de notar. Lembro de Isidoro dizendo a você, essa é a minha irmã, e o cumprimento, você tinha acabado de receber uma latinha de soda do garçom e colocou num copo com gelo que podia ter alguma coisa de álcool dentro, e então, a conversa, como Isidoro se aproximou para ouvir por um tempo e depois saiu fora, eu me lembro de como ele estava, querendo se divertir, queria falar bobagens com os outros enquanto eu e você começamos a falar, sem intimidade, de algo acadêmico e cinza, e depois quando eu falei de culpa, você disse algo que fez tanto sentido para mim que sou incapaz de reescrever as suas palavras. Tanto porque não me lembro com exatidão delas. Me lembro a sensação de paz e inquietação que você me deixou naquela noite, através do seu tom de voz e das suas palavras, respectivamente. E depois tive de fugir por causa de uma carona que, se eu perdesse, me arriscaria uma madrugada na rua.

Isso tudo aconteceu faz cinco meses, mas eu só consegui falar daquela noite com alguma retidão quando falei da blusa, do rosto de Joan, das mãos do meu irmão, e ainda, não consigo falar dos seus olhos ou da sua fala, porque as coisas vão se perdendo, devagar, e eu recordo apenas das infimidades: o azulejo cor de areia que revestia o lado de fora do bar, os risos, a sua mão segurando o copo, o cabelo preso de Joan e o cigarro atrás da orelha, os rapazes sentados atrás de você, os seus sapatos, a sua altura. Quando cheguei em casa, sanei a dúvida de escrever ou não escrever a você quando me sentei na minha cama fria e fiz uma aposta comigo mesma. Se o número de grampos do meu cabelo fosse par, eu não escreveria nunca e te perderia de vista, se fosse ímpar, eu escreveria. Contei onze grampos, te enviei meia dúzia de cartas, e da única vez que te vi, você pediu perdão por não respondê-las. Disse que queria deixar acontecer, como se tivesse mais consciência da minha própria vida do que eu mesma. Talvez não tivesse nada a me falar, e eu tinha muito a falar a mim mesma, enquanto te escrevia: ninguém escreve para os outros, escreve cartas apenas a si. Então, bem distante de novo, escrevo essa nova carta sem nome num papel duro, difícil de dobrar, e que custaria caro se realmente fosse enviada pelo correio, mas você sabe, é palavra de mentira com verdade carnuda por dentro da casca.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Postais: a história da água



"O último livro que meu pai traduziu foi a Odisséia, do grego ao português. Costumava brincar que era um dos únicos livros do mundo; apesar de se interessar por muita literatura, velha, nova, nacional, internacional. E, assumindo um tom sério, dizia que tocar cada página da Odisséia era estar de volta à terra onde nascemos, enquanto os outros livros eram viagens das quais sabíamos retornar"


(O texto e a ilustração pertencem a um postal de uma série de cartões que vou mandandando pelo correio para a Ana Paula, artista parceira, e ilustram um romance que comecei a escrever no meio do ano passado)