quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Underwood 298 + I Prêmio Araucária de Literatura

(Ontem cheguei em casa meio bêbada de cervejas Malettianas e fui olhar meu e-mail, e, tcharaaam, esse conto ficou em segundo lugar na categoria Conto do I Prêmio Araucária! A mulherada arrasou dessa vez. Não gosto de postar textos muito longos nesse blog, mas vai esse aqui, por que quando reconhecem o filho da gente, a gente fica muito muito muito feliz.)

UNDERWOOD 298
(para William Bernal Lima)


Olha da janela do quarto, vê, pensa, peteleco na guimba de cigarro arremessa pra cair lá embaixo, fica presa naquele platô entre o primeiro andar, o térreo e a calçada. Janelinhas acesas por aí, tem uma televisão ligada nas que piscam, azul, verde, vermelho, quando não faz esse calorão, tem cortina fechada. O que assistem - o jornal com a contagem dos mortos, uma novelinha com as vidas que eles acham que ainda vão ter, desejo açucarado. Acende um novo último cigarro do maço. Dedo amarelo. A mãe advertia, o tabaco, a bebida, a tristeza – além de outras coisas que ela não vai mencionar, demais para um corpo como o de qualquer garoto de, por aí, dezoitodezenovevinte anos, talvez um pouco mais. Olho claro, sarda no rosto de uns dias ensolarados que ardem até hoje quando lembra, o caráter sempre sucumbe.
Ele olha, vê e pensa. No andar de baixo, na varanda, jovens homens jogam cartas, tomam cerveja e comem sushi de supermercado. Devem ter no máximo trinta anos. Se tivessem mais que isso não haveria sushi sobre a mesa mas sim alguma aposta. Os jovens não apostam nada de verdade. Com toda essa coisa da camada de ozônio não há como apostar, tu viu? Aquele carinha morreu de ataque cardíaco, cocaína, carro passou por cima. Manual de instruções. Porra, pior que hoje deve ser sexta, com todos esses carros, esse barulho, essas luzes acendendo. Deveria sair, vestiu um jeans, foi levando um agasalho, menos para o corpo e mais para o coração, a mãe ia dizer pra levar um agasalho, era pra não ouvir nada a obediência prévia. Já comeu? Tá levando dinheiro? Volta tarde não, heim? Deixou-a para trás com novelas e casos e revistas e vassouras. Desce os catorze lances pela escada, falta de paciência pra elevador falido, não dá pra ficar esperando, a vida é curta hoje em dia, dura pouco mais de cem anos. Vai ficar sem seu pedaço se esperar de bunda mole a vizinha do quinto despedir do namorado, aquele bosta, segurando a porta emperrando todo mundo.
Dá tchau pro porteiro, ia fazer uma comentário sobre o Corinthians, mas não teve jogo ontem nem anteontem, sei lá, não valia a pena. Prédio falido. Vão demitir o cara essa semana, olha que merda. Ele vai andando, sabe que os amigos vão estar sempre no pior bar da cidade, vai encher tanto depois das nove. Talvez a Bia esteja lá. Todo aquele cabelo loiro e comprido e cacheado, aqueles olhos pretos firmes onde ele se perdia noite após noite, após orgasmo, após café e filme e bar e cigarro. Sim, sempre retornamos ao início, o cigarro. Entra num lugar qualquer, não sabe se é boteco lanchonete padaria farmácia pub irlandês, compra um maço, tira o plástico. Põe um atrás da orelha, guarda o resto no bolso da calça, vai andando, vai andando. Bia, a Bia, Beatriz tinha aquela tatuagem inacabada nas costas – tava trabalhando numa locadora pra juntar as trezentas pilas pra terminar aquele sofrimento. Uma amiga deles que tinha feito o desenho. Eram asas, enormes, partindo das escápulas até aqueles dois furinhos lindos acima da bunda. Que bunda linda, branquinha nuvem de abril, meter a cara ali, dormir ali. Beatriz era toda branca e lisa e linda. Beatriz, que um dia fora sua e agora só restava uma jarra vazia cheinha de rancor. Olha como agora as lembranças boas amargavam com a passagem do tempo. Não sabia se de saudade ou de raiva mesmo, de quando Beatriz se foi e cuspiu aquelas palavras horríveis na cara dele. Eu nunca te amei, nunca senti tesão por você, nunca isso, nunca aquilo. Ele fora o primeiro homem da vida dela, primeiríssimo; mas jamais único. Imbecil.
Desceu uma rua e depois desceu outra. Queria saber que horas eram, mas não havia relógio algum e ele não queria perguntar para as pessoas que responderiam de má vontade, péssima fé, amargas feito aquele gosto na boca dele de quem não come nada descente desde o almoço da terça-feira passada. Ia a caminho quando topou com um amigo. Numa sacola de supermercado, ele estava levando doze cervejas embaladinhas, enfileiradinhas, obedientes. Cumprimento. Disse que tava indo na casa de um outro lá que ele nem se lembrava de conhecer.
“Vai uma latinha? Tá quente, mas...”
Sacola cinza reforçada.
“Não, valeu, velho. O que vocês vão fazer?”
“Ah. O mesmo de sempre. Reuniãozinha com os amigos, ver uns filmes. Beber.”
Tá foda, encontrar amigos na rua, eles sempre se lembram do que eu esqueci, depois de semana passada à noite. Tá foda.
Chegando ao famoso bar, sentou-se sozinho. Ninguém conhecido. É. Talvez não fosse sexta. Domingo, no máximo, depressão – o caminhão de lixo não passou. Pediu uma cerveja.
As pessoas passavam. Gente é feita pra passar, pra ir e vir da sua vida por que no fim, no fim de tudo, você vai morrer e ficar sozinho e ir para algum lugar que ninguém sabe onde é. Um lugar que ninguém sabe se existe. E eles crêem que existe, assistindo jornal, vendo novela, enterrando. Ele preferia não crer em nada para não se machucar depois com a descoberta duradoura do vazio. As garotas olhavam para ele, mas ele preferia não olhar. Enjôo. Ia acabar como Beatriz acabou e como todas as outras acabaram. Um beijo molhado e bêbado. Dois corpos. E depois cobranças semanais e brigas e fins sem justificativa. Roupa de corpo. O mundo era cheio de fim, mas também era cheio de recomeço. Ficar ali, tapando o poço pelo fundo, saber que mais que aquilo ele não poderia se afundar.
Aos poucos, enche a cara e tudo vai se tornando mutável e belo. Cerveja sozinho entrecortada de pinga embebeda mais. Sem pedir permissão, se senta junto a ele um homem que lhe conta a história de sua vida. Olham-se nos olhos, é um senhor, tem uns cinqüenta anos – ou mais. A noite escurece. Ele ri, sem saber do que está rindo. O homem coloca a mão em sua coxa e o assusta. Sai que eu não sou desses! O outro oferece dinheiro e ele não aceita. O homem bate na mesa e grita, mas ele não pode ouvir. Ele não consegue entender o que diz. Esvazia a carteira para a conta e sai correndo, dignidade de michê. O homem fica. Mas quanto a ele, onde está? Perdido. Perder-se podia ser bom, encontrar-se era melhor naquele passo da noite, mas era muito raro. Andou e andou e andou. Não havia dinheiro para mais cigarros, maço inteiro em poucas horas, porra. Ele sentia seu corpo ficando podre como fruta há dias na cozinha sem sinal de alguém pra devorar. Espere mais um pouco. Mais um pouco. Chegou em casa quando quase amanhecia, chorou por quinze minutos e adormeceu até meio-dia.



Quando sonhava e se sonhava era com Beatriz, o sorriso de Beatriz, a bunda de Beatriz, as marcas do corpo dela. As covinhas, as cicatrizes, o cheiro. Pecado mortal ter aquele doce, feito baunilha ou dama da noite ou jasmim, flor, desses cheiros fortíssimos que te deixam enjoado e feliz, veio da casa de alguma avó na infância, num passeio numa praça a noite, passado. Ser feliz é perigoso, você se acostuma.
Ele se levantou e a mãe brigou por que ele estava sem camisa naquele frio e ele poderia se gripar. Chovera das três da manhã até aquela hora da tarde. Que frio era aquele, de repente assim, sem ser inverno nem nada? Pois é, acho que o mundo ta acabando mesmo, ozônio, noticiário, novela. Ele bebe vinte e dois copos de água e come pão seco. O que foi, menino, ta fazendo promessa? Come direito. Sem vontade, sem fome. Era a gastrite, que o comia por dentro, acidez alternada com a amargura dos dias sem se alimentar com nada além de um litro e meio de café.
Volta ao quarto e procura os cigarros que ele não comprou ontem. Comprou sim, eu tinha certeza. O que aconteceu? Foi se lembrando aos poucos. Otário, estapeia o próprio rosto. Não tem mais dinheiro na carteira nem mais cigarros para fumar. O que fazer agora? A mãe já esvaziou o cinzeiro e o quarto está limpo. Sua mente está cheia de escuro e asco. Quer ficar sozinho. Fecha a porta, lê um livro excelente, dá duas voltas na sala. Inquieto, não sabe o que fazer. Da janela vê o resto da festa dos homens de ontem. Que dia mais triste – é segunda, terça-feira? Todos estão descansando trabalhando comendo existindo e meu cérebro não pára de pensar de pensar de pensar de pensar de.



Visitar o avô no hospital. Todos sabem que ele já está partindo, mas mesmo assim insistem em recomendar dizer que tá melhorando se despedir. Por não querer dizer adeus, compra as margaridas mais bonitas que se pode encontrar num dia cinza úmido bolorento antigo daqueles. Vai caminhando, os tênis machucam. A mãe lhe oferece um novo par, mas ele não quer, ele não aceita. Vai usar aqueles sapatos velhos até nunca mais. Barra de calça desmanchando, puído, descosturado, boneca de pano com o recheio saindo, ninguém entendia.
O hospital era um lugar infértil e ele gostava de lá por isso. Ali, não havia idéias, namoradas ou cigarros, jornal, novela, ozônio, havia apenas o silêncio, branco e profundo, que ele tanto desejava. Andou pelos corredores com as margaridas nas mãos. Estava ansioso para ver o avô, descendência italiana, perguntar se melhorara. Sabia que a resposta ia ser para sempre sim, mesmo com a piora das dores e com a maior dificuldade para se respirar. Otimista, bateu e abriu a porta do apartamento e se deparou com o vazio. Uma jovem enfermeira retirava os lençóis usados.
Pois não? Ela perguntou, doce. Ele falou que precisava do avô. A moça deu um sorriso apertado e falou gentilmente que o homem que habitava aquele quarto acabara de falecer. Perguntou se ele era da família, estavam todos por lá. Ele agradeceu e saiu segurando as lágrimas e os dentes. Tapar o fundo de lama do poço, não havia mais nada a se sentir. Mordia a língua e se arranhava por dentro felino para não gritar.
Passou pelas mesmas ruas e seus pés doeram mais ainda. Ele apertou o buquê. Como as flores podiam sorrir numa situação daquelas? Margaridas: Miolos amarelos e pétalas brancas. Lembravam-lhe o cabelo e a pele de Beatriz. A aflição crescia e ele não podia chorar. Está proibido de sentir. Subiu para o quarto, fechou-se e se empenhou em despetalar as flores, uma a uma, formando um belo montinho branco no chão. Aquilo novamente lhe lembrava Beatriz. O cheiro das margaridas agora era seu. Que bom. Pelo menos ele ainda tinha alguma coisa.



Pois é, você disse que me viu outro dia, subindo a Augusta, eu tava usando um vestido, você tava bêbado, e quando ela chegou perto, nem era eu. Não era eu, não. Mas acho que eu te vi também, noutros outros dias. Te encontrei várias vezes no metrô de Viena, por acaso, um abraço e te ligo mais tarde . Não estava em lugar algum. Te deixei tantas várias vezes sentado naquele bar com a conta após desentendimentos políticos fóbicos amorosos literatomusicais, ou ivernos, por debaixo. Ou te achei esquecido nos bolsos dos casacos depois de um verão inteiro ou numa pedra solta, na qual de repente tropecei e machuquei o pé, não havia nada sob ela. Esperando nos consultórios dos dentistas. Marcando um encontro perto daquele monumento naquela praça perto daquela árvore junto a tal estação. Ou bêbado, desolado, me abraçando pela cintura por não conseguir se levantar. Passeando com o cachorro, vestido numa calça velhinha de pijama, debruçado sobre a avenida. Jogando as flores no chão, me esperando naquele small café em Berlim (Lou nos falou dele, Lou estava certo e nós estávamos completamente errados), o isqueiro, o maço sobre o livro fechado, o meu tempo inconsciente. Eu vim aqui e olhei. Contei cada achado e perdido do inventário do seu morto.



Do quarto de despejo, a mãe retirava antigos bens de seu avô morto. Roupas, livros de Direito, cadernos ilegíveis, caixas. Curioso, ele mexia nas antiguidades. Sai daí, menino, tem muita poeira, você sabe como são os seus pulmões, vai ter crise asmática de novo. Asma não vinha pra cá desde os nove anos. Ele sabia. Ia se retirando quando viu um enorme objeto preto. Não, preto não era. Era azul marinho, azul petróleo, bem fundo e distante. Retirou-o da imunda pilha de coisas e não pôde acreditar na máquina de escrever que encontrara. Dessas antigas, grandes, paradas já há anos. Será que ainda funciona? Perguntou à mãe. Não sei, ela respondeu, por que você não experimenta? Ele testou todas as teclas, uma por uma e todas as letrinhas estavam por lá, algumas travadas. Limpou-as com algodão. Por algum motivo, não havia mais tinta. É que tá sem fita, filho, ela disse. Sim, aquela fita que você coloca para escrever. Correu até a papelaria e comprou-a com seus últimos trocados que em outras épocas serviriam para amarelar os dedos renovar mágoas com a euforia do dia anterior.
Demorou meia hora para conseguir encaixar a fita na máquina. Quando tudo estava bem e os seus dedos estavam imundos de tinta, ele se lavou e se sentou para escrever. Mas escrever o que? Primeiramente Beatriz. Escreveu Beatriz todinha no papel em branco. Quando ela já estava pronta, colocou-a numa pasta e escreveu a história do avô, das tias, da mãe. Escreveu a história do homem no bar com a mão em sua coxa e escreveu a história dos sushis dos rapazes do andar de baixo. Escreveu das margaridas e do frio.
Os papéis não mais brancos se empilhavam sobre a mesa e os inválidos eram rasgados e jogados no lixo. Que fúria rasgar papel. Os dias se passaram e a pilha letrinhas foi aumentando. Pensou na torre de babel, grossa e herege.
A mãe levava leite morno para que ele não parasse de escrever. O que esse menino tanto escreve, meu Deus? Mais café. Ele continuou e continuava. Tudo fluía, caudaloso rio. Fazia um sentido maior que a vida. Era aquela a razão para a sua estadia naquele planeta tão cheio de novela, noticiário, ozônio, cerveja, amarelo? Não sabia. Só sabia que as histórias o viciavam.
Depois de quarenta dias e quarenta noites no mar e no deserto, ele parou e se levantou para descansar. O corpo doía, mas havia o orgulho por sua obra. Era o seu universo. Parou diante da janela e não viu mais as pessoas. Enxergou apenas o céu doloroso cheio de cinza. Colocou a mão para fora e recebeu, gentilmente, as primeiras gotas de chuva.

5 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. coisa boa não cansa. [2]


    achei isso tudo lindo.

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  3. A SELMA WEISSMANN TÁ COMENTANDO NO SEU BLOG????


    ficou liiiiiiiiiiiiiiiiiiiiindo laurinha!!!!
    lindo
    muito orgulho.
    mesmo.

    palavra do artista!

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