terça-feira, 1 de dezembro de 2009

nunca

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Tem a mariposa aqui até agora. Ela tá aqui comigo desde quando escureceu. Ela assistiu minha noite inútil, ela sabe que eu não fiz nada. Não conversei com ninguém. Não li. Fiquei ouvindo chuva, carro na rua, fala de vizinho. Ouvi as mensagens de voz ecoando da sala para cá, quando eu não atendi ao telefone; uma perguntava se tava tudo bem, outra cobrava um projeto, outra queria desmarcar um encontro triste e inútil, o quarto dizia saudade. Fui deitar cedo, olhei pela janela, a cidade já estava meio apagada. No escuro, o pessoal acendeu as luzes, e uma neblina ficou suspensa em cima dos prédios. Depois as luzes se apagaram aos poucos. Ela continua aqui, é uma condenação. Ou você atura uma mariposa, incomodado pelas asas batendo nas paredes, ou você a mata e convive pesaroso com a morte dela. Grudou na minha janela, vai escalando patinha por patinha, e ao voar se depara com o vidro de novo. Retardada. Tiro o chinelo, ergo na altura dos ombros, ela voa para a luz e cai no chão. Está bem perto de mim agora. Eu não consigo me decidir.

4 comentários:

  1. Cinematográfico do começo ao fim.

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  2. Gostei muito, passo sempre por experiências parecidas, assim preguiçosas e melancólicas, só que com lagartixas, que me provocam pavor.
    Solução: deixe que a lagartixa pegue a mariposa.
    Pura viagem, desculpe.
    Selma.

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  3. Já falei que achei lindo isso aí.
    :)

    Sou sua fã, Laura. Sabes disso.

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