terça-feira, 25 de janeiro de 2011

O que fazer com as cartas que eu não mandei (I)



Ana Paula,
Encontrei algumas cartas que eu escrevi faz tempo e que não enviei nem joguei fora, preferindo guardá-las, sei lá porque, dentro da minha escrivaninha. Hoje estou tentando me livrar dessas coisas velhas. Acabei escolhendo uma delas (datilografada, sem data, escrita a um amigo) e recortar palavra por palavra, metade da frente, metade do verso, para depois enviar para outra pessoa que não é o destinatário original. Escolhi você. Espero que entenda.
Um beijo,
Laura.












domingo, 9 de janeiro de 2011

A Terça



Hoje de manhã vesti por acidente ou por impulso a blusa que eu estava usando na noite em que Isidoro me apresentou a você – guardo, também por essa sorte equivocada de acidente, a memória estranha da roupa que eu estava usando naquela noite, a saia preta que vai bem com tudo, os sapatos de salto e a blusa preta e branca de uma estampa geométrica difícil de decifrar (são pássaros voando), uma dessas blusas que normalmente reservamos para ocasiões especiais, e não para o uso cotidiano que eu realizei hoje ao sair de casa para um dia normal. Estava com os cabelos presos, apesar de Isidoro sempre dizer que os preferia soltos, e era uma noite mais ou menos quente, mais ou menos fria, o que me fez pegar um casaco e colocá-lo na bolsa antes de sair de casa. Quando fomos apresentados, acho que eu já estava com o casaco no corpo, era tarde. Fiz que Isidoro levasse também sua jaqueta, mas o dele passou a noite toda dependurado numa cadeira de dentro do bar ao qual nos arrastamos depois do concerto. Normalmente quando as noites são douradas ou hesitantes, suspeito de algo que vai acontecer, numa espécie de marca de destino. Eu me lembro que eu estava em uma mesa tão cheia de gente, e a noite enturvara, assim, como se houvesse uma neblina no ar entre os meus olhos e o rosto das pessoas, e a luz amarelada das lâmpadas explodia em todos os cantos. Segundos antes de Isidoro encostar as mãos nos meus ombros e me dizer que eu me levantasse, eu olhava para Joan de pé na calçada, Joan, aquele rapaz catalão ou basco (eu me esqueço) que estava por aí naquela época, morando na casa de um ou de outro, e percebi de longe o tanto que o rosto dele era feminino, as bochechas, o nariz, o sorriso, as mãos, até mesmo a voz e o jeito de fumar me pareciam serem pertencentes apenas a uma mulher. Até mesmo o nome Joan é terrivelmente dúbio, conheço algumas moças que se chamam assim. Isidoro reafirma que eu nutro uma fascinação crônica e sem motivos por gente indefinida; e se tratar de uma pessoa rude ou distante, como o Joan é, eu gosto mais ainda, para poder manter a distância necessária de uma espiã. Eu olhava para Joan e então Isidoro veio, falou para eu me levantar que ele tinha que me apresentar a uma pessoa.

Você estava do lado de fora do bar, na calçada, sentado numa mesa repleta de homens. Ficamos de pé durante a meia hora em que comigo. Meia hora? Não me lembro do tempo, não me lembro da linha, não me lembro das coisas funcionais e ordenadas, que são feitas para a recordação prática das comunicações. Recordo apenas aquelas coisas que facilmente se perde o dom de notar. Lembro de Isidoro dizendo a você, essa é a minha irmã, e o cumprimento, você tinha acabado de receber uma latinha de soda do garçom e colocou num copo com gelo que podia ter alguma coisa de álcool dentro, e então, a conversa, como Isidoro se aproximou para ouvir por um tempo e depois saiu fora, eu me lembro de como ele estava, querendo se divertir, queria falar bobagens com os outros enquanto eu e você começamos a falar, sem intimidade, de algo acadêmico e cinza, e depois quando eu falei de culpa, você disse algo que fez tanto sentido para mim que sou incapaz de reescrever as suas palavras. Tanto porque não me lembro com exatidão delas. Me lembro a sensação de paz e inquietação que você me deixou naquela noite, através do seu tom de voz e das suas palavras, respectivamente. E depois tive de fugir por causa de uma carona que, se eu perdesse, me arriscaria uma madrugada na rua.

Isso tudo aconteceu faz cinco meses, mas eu só consegui falar daquela noite com alguma retidão quando falei da blusa, do rosto de Joan, das mãos do meu irmão, e ainda, não consigo falar dos seus olhos ou da sua fala, porque as coisas vão se perdendo, devagar, e eu recordo apenas das infimidades: o azulejo cor de areia que revestia o lado de fora do bar, os risos, a sua mão segurando o copo, o cabelo preso de Joan e o cigarro atrás da orelha, os rapazes sentados atrás de você, os seus sapatos, a sua altura. Quando cheguei em casa, sanei a dúvida de escrever ou não escrever a você quando me sentei na minha cama fria e fiz uma aposta comigo mesma. Se o número de grampos do meu cabelo fosse par, eu não escreveria nunca e te perderia de vista, se fosse ímpar, eu escreveria. Contei onze grampos, te enviei meia dúzia de cartas, e da única vez que te vi, você pediu perdão por não respondê-las. Disse que queria deixar acontecer, como se tivesse mais consciência da minha própria vida do que eu mesma. Talvez não tivesse nada a me falar, e eu tinha muito a falar a mim mesma, enquanto te escrevia: ninguém escreve para os outros, escreve cartas apenas a si. Então, bem distante de novo, escrevo essa nova carta sem nome num papel duro, difícil de dobrar, e que custaria caro se realmente fosse enviada pelo correio, mas você sabe, é palavra de mentira com verdade carnuda por dentro da casca.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Postais: a história da água



"O último livro que meu pai traduziu foi a Odisséia, do grego ao português. Costumava brincar que era um dos únicos livros do mundo; apesar de se interessar por muita literatura, velha, nova, nacional, internacional. E, assumindo um tom sério, dizia que tocar cada página da Odisséia era estar de volta à terra onde nascemos, enquanto os outros livros eram viagens das quais sabíamos retornar"


(O texto e a ilustração pertencem a um postal de uma série de cartões que vou mandandando pelo correio para a Ana Paula, artista parceira, e ilustram um romance que comecei a escrever no meio do ano passado)

domingo, 14 de novembro de 2010

sexta-feira, 8 de outubro de 2010


a.bor.re.ci.men.to s.m. : 1 disse-me ontem que não estava conseguindo trabalhar por causa do calor e do canto onipresente das cigarras, bzzz, e era bem mais forte de manhãzinha e ao fim da tarde, quando o calor infernal começava ou começava a diminuir; soltar as amarras, por que o calor é feito de cordas apertadas que vão sufocando a pele da gente, o corpo da gente. É como febre, pegar um ônibus num fim de tarde num dia de calor. A sombrinha que abri para o sol, ontem, abri hoje para a chuva: tardou, foi contínua, e não sei se o céu abre de novo. O mormaço foi cedendo ao frio. Nenhuma cigarra canta, mas é como se cantasse. Bzzz. Não consigo abrir a página do livro que deveria ter lido há tempos; mas abri, criminosa, o Livro do Desassossego, e havia uma frase que começava falando assim do tédio: “sem definição”, não terminei de ler por causa do tempo, ai o tempo, fecho também este livro e me levanto, e percebo que a ampulheta de areia que fica na minha estante está virada de lado, interrompida ao meio 2 finjo que espero que o céu se decida, mas ele não se decide, então ainda posso fingir 3 Johnnatan diz que só escreve aquele que não tem um trabalho melhor, aquele que não tem nada a fazer, corrigiria se pudesse voltar no tempo, aquele que não tem mais nada a fazer 4 queria ter um dicionário grandão, que tivesse até seu nome dentro dele, que houvesse até mesmo o significado da palavra “areia”. Queria que já fosse sábado 5 supermercado 6 e Jean-Luc estava tão elétrico, como se estivesse bêbado, talvez seja isso, uma bebedeira que não se engole, mas que cai sobre o corpo da gente e a gente fica de ressaca antes da hora 7 talvez seja esta dona falando ao celular atrás de mim, brigando com alguém do outro lado da linha, dizendo, você pode me ouvir falar antes de gritar comigo? 8 ou um filme que eu já vi mil vezes, 9 marasmo

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Conto no carimbo!



Influenciada pelo Paulo Bruscky (tá tendo uma exposição imperdível delelá no museu de arte da Pampulha, aqui em BH) resolvi pirar na idéia que ele teve com carimbos e fiz um carimbão com um miniconto inteiro, pra sair marcando por aí qualquer papel que for maior do que 6,8x10cm, cadernos de amigos, panfletos velhos, ou qualquer superfície receptiva...





Gostei até - apesar da tinta que eu arrumei não estar me ajudando muito, ela não adere muito bem à superfície do carimbo e acaba não imprimindo muito bem. (E eu odiei a cor azul). Acho que vou fazer mais alguns, só que com continhos menores que esse grandão, coisinhas de duas, três linhas, uma frase, e convido aos blogueiros amigos que, se tiverem vontade, façam também; é uma forma divertida e quase barata de materializar textos.

sábado, 11 de setembro de 2010

Relicário



Ainda conservo aqui a foto 3x4 que tirei naquele dia em que estava com a blusa do uniforme do clube manchada de mercúrio-cromo, eu tinha dezessete anos e não sorria. Nesta imagem, meu rosto parece cansado, minha pele nunca esteve tão morena e meu cabelo crescera além da minha vontade – deixei assim por uma vez, ao desejo de mamãe, que não gostava que eu o cortasse tão curto – atingindo a linha dos ombros, um recorde que só fui retomar quando me formei na faculdade e namorei Antônio, amante de cabelos longos, muitos anos depois. Toda a superfície escura e homogênea do cabelo que é hoje não se mostra assim nesta fotografia: as pontas, queimadas de sol e cloro, denunciavam meu ofício da época, os ombros largos, os pés grandes, corpo exausto. Hoje, me parece um absurdo que a natação me tenha consumido tanto na juventude. Creio que também nestes dias, mamãe já começara a alisar o cabelo de Anya, minha irmã mais nova, que nascera com cachos macios e indesejados na cabeça, e com um estrabismo operado mais de três vezes, um estrabismo que nunca conseguiram corrigir perfeitamente, esquecido quando Anya se entregou por completo ao violoncelo e quando pais estavam à beira de um divórcio definitivo que levaria meus irmãos para longe de mim.

O mercúrio vermelho-escuro sobre a superfície antiga da blusa era uma imagem-marco da lembrança do dia em que aconteceu o primeiro de três acidentes que me afastaram da água, sendo que o último deles me quebraria um fêmur e um braço, me colocaria pinos em um joelho e em um pulso, além de me dar as cicatrizes, e esse dom emblemático de sentir dor quando o tempo está para chover, resquício dos esfolados, o meu último contato com a água, irreversível como a própria chuva que eu prevejo. Mas não, não era dessa vez mas na última em que houve o acidente de carro, e a mancha não tinha nada a ver com tantas injúrias, fora apenas um pequeno resquício de uma terça-feira violenta no banheiro do clube:
Era o fim de tarde, e começara a chover, quando acabou o treino e deixamos a piscina. Eu não corri da chuva, com medo de cair (e depois de um tempo, descobri que a chuva, além de um aborrecimento eterno e uma beleza peculiar, é uma espécie de presságio, nem mau nem bom, mas a chuva é um acontecimento sempre quer dizer algo). Havia certo asco em entrar no vestiário e ver nuas as colegas da equipe de natação, encarar o cheiro de água sanitária, perfume e desinfetante, ao se despir e entrar num banho que prometera um dia ser quente, no botão “inverno”do chuveiro elétrico mentiroso. Hoje, estas moças estão todas desaparecidas, nenhuma notícia de nenhuma moça, nenhum rosto na televisão em competições nacionais e internacionais, nenhuma das moças brasileiras nestes eventos é da mesma cidade ou freqüentou o mesmo clube que eu, apesar de haver algumas promessas, levadas por olheiros para Pequim, Paris, Melbourne, Quito, Tóquio, e esquecidas para sempre pelo quotidiano exaustivo de treinamentos. Bárbara, a única com a qual eu conversava de verdade (eu era conhecida por uma timidez equívoca enquanto eu deveria ser conhecida por meu amor ao silêncio, e nem mesmo a Bárbara fora capaz de compreender isso) me falava sobre sapatos, provavelmente, ou matemática, ou dedos enrugados e unhas quebradas, ou depilação e marcas de biquíni, ou almoço, e ela falava, quando uma das meninas, que provavelmente se chamava Nádia ou Natália empurrou outra, que se chamava Isabela ou Isadora, e as duas começaram a brigar. Uma briga física: empurrões, mordidas, cabelos, me lembro bem desta imagem, uma delas, a que atacava, estava de calcinha e sutiã, enquanto a outra, a que era atacada, estava completamente nua. “Puta”, “piranha”, “vaca”, ouvia-se por todo o quarteirão que cercava o clube. Então, enquanto as velhinhas que caminhavam na água antes da novela começar, as grávidas que vigiavam os outros filhos brincando na piscina e umas meninas pequenas observavam com horror a cena, aquela senhora que cuidava dos vestiários tentou separar a briga de gritos, grunhidos e pontapés, e eu não consegui me esquivar quando Nádia ou Natália caiu em cima de mim. Ainda gritava, mas foi segurada pelas mãos escorregadias das outras nove meninas que pertenciam à equipe.

Eu não havia me machucado dessa vez (não podendo considerar este episódio como um dos meus acidentes), mas acabei tendo o meu chinelo arrebentado pela ira daquelas duas meninas. Depois de um sermão da senhora do vestiário para cima dos ouvidos de todos (“não é assim que a gente resolve as coisas” ainda ressoa dentro de mim, naquela voz cinza de fumante da mulher), terminei de me vestir e fui arrastando o meu chinelo arrebentado, caminhando ao lado de Bárbara para o lado de fora do vestiário. A chuva havia parado, e Bárbara finalmente começara a falar, em voz baixa, o motivo daquilo. “Foi por causa de um dos meninos”, disse ela, “ele é da equipe, você deve conhecer – o Aquiles”. Sim, eu disse, eu conheço um Aquiles na equipe, mas nunca troquei uma palavra com ele, eu não trocava uma palavra com ninguém. Algo havia acontecido – Aquiles estava com uma das meninas, e elas haviam brigado por que, numa festa, ele beijara a outra. Na época, não sei se fiquei chocada ou apenas sacudi a cabeça, marcando a idiotice da situação, mas o que mais quis foi ver a cara deste Aquiles, que interesse grande era o que se construíra pelo rapaz. Eu já me interessara por alguns, sim, e já beijara outros, colecionando algumas experiências –todas frustrantes – das quais eu podia falar, fingindo uma futilidade exigida naquele meio. Mas nada me interessava, naquele momento, além de ver o rosto de Aquiles. “Vou te mostrar quem é”, Bárbara disse, enquanto eu arrastava o meu chinelo através do espaço entre as árvores do clube. Espere, eu disse, quando estávamos para entrar no corredor de troféus da secretaria, e eu tirei o meu chinelo, decidindo seguir descalço dali pra frente. Depois de alguns passos seguros em cima de um chão úmido de folhas que caíram depois da chuva, eu pisei em cima de alguma coisa que eu não havia tido cuidado em olhar, uma coisa de um conteúdo primeiramente mole e depois muito quente. Demorei a perceber o quanto aquilo doía, a dor me fez esquecer que eu queria o rosto de Aquiles, e por essa cegueira da dor, compreendi só depois de alguns segundos demasiado longos que aquilo era uma dessas lagartas de fogo que, como aprendíamos na escola, possuía este veneno escaldante, e que um dia se tornaria uma borboleta.