domingo, 29 de agosto de 2010

fumaça



Jean-Luc, hoje eu não tenho vontade de fazer nada. Preciso me perdoar, ou, bem, necessito lutar contra essa dominação esgarçada em permanecer estancada na poltrona, olhando para o dia, fazendo dele o meu shabat errado e criando as leis que vou cumprir até o fim da manhã, quando a fome for maior que a placidez e decidir que devo fazer um almoço ou algo que não deprima tanto o domingo. Augusto ainda dorme, é um aborrecimento, há pouquíssima gente acordada quando deveria estar dormindo, isto não é compaixão, estão todos perdidos como eu. Escute: O menino do nono andar aprende flauta doce. Sinta: este cheiro de cigarro – alguém fuma no corredor do prédio. Uma vez você me contou, enquanto fumava, perguntaram a Juan-Miró, o artista, se ele fosse politicamente preso e tirassem dele todos os materiais para fazer a pintura dele, e você disse que o Miró disse “não importa”, você tragou, e disse que o Miró disse “eu posso pintar”, soltou a fumaça enturvecida no ar, “com a fumaça do meu cigarro”.

Escrevo hoje também uma carta ao Augusto: escrevo a ele, tenho vontade de te levar a todos os lugares em que você quer muito ir, e quero ir com você a Buenos Aires, Barcelona, São Petersburgo, Rio de Janeiro, quero ficar com você dentro da minha casa, mas você sabe, aquilo “todas as cartas de amor são ridículas”, e a lerdeza hoje é tanta que nem me lembro de qual heterônimo do Fernando Pessoa escreveu isso. Foi o mesmo heterônimo que escreveu “já disse que não quero nada!”, disso tenho uma certeza quase exata, mas me foge, me foge o nome, me foge Portugal, me foge tudo. Uma carta é quando a gente passa a existir para o outro: isto veio escrito no meu livro preferido. Uma carta é quando a gente existe em função do outro. Hoje, doeria muito reescrever palavras do meu livro preferido, mas enquanto escrevo a você, Jean-Luc, não dói tanto por que uma carta é sair de si e ir para uma cabeça que a gente acha melhor que a da gente. É um repouso.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Quarteto para o fim dos tempos

“Tudo isso não passa de tentativa e balbucio, se pensarmos na grandeza esmagadora do assunto!”
Olivier Messiaen.



Tanto a dizer. A sensação nas pernas, esta moleza, não havia passado; tampouco os arrepios, consumindo o corpo em uns espasmos desagradáveis, um beliscão no tempo, relembrando a música da noite anterior – porém agora já era manhã, não manhã longa e estendida (como a toalha que havia colocado para secar na janela do quarto, depois do banho), mas às nove, ou oito e meia, ou apenas oito, reescrevia o nome da cidade no caderno, junto à data do dia de hoje, que não parecia verão. Estava frio, um abismo; entretanto, havia sol, ele ultrapassava, espião, os vidros entreabertos e se estendia, aí sim, sobre uma nesga retangular da parede decorada do quarto. O papel estava desbotado, como se há muito tempo houvesse um desenho além de flores rosas, neoclássicas, farsantes e tediosas, era como se algum dia elas houvessem sido algo mais forte e mais inundado de significado, como rosas vermelhas, ou como se... Como se... Não achava uma comparação decente: Uma metáfora feliz. O rosto estava meio áspero, de chorar, talvez, ou por causa do vento no rosto, noutrora, dentro do carro sobre a estrada, quando ela pediu para Lucian abrir a janela, e sentiu aquilo embaraçar o cabelo fraco antes que começasse a chover... Antes que começasse a chover, sentiu o cheiro da chuva, e depois sentiu o cheiro queimado do sol se abrindo de novo. Alguém, alguém morreu nesta casa, pensou consigo ao sentir uma energia ruim vindo de novo do papel de parede, e outro arrepio, agora não proveniente da noite anterior, mas de quando alguém morreu nesta casa.

Olhou de novo os papéis da Anya, coisas velhas que Lucian havia levado para lá com intuitos não muito claros. Ele apenas havia enfiado uns papéis velhos, guardados há anos na casa em Nova Iorque, alguns diários, ou folhas soltas, anotadas, amarradas com uma fita. Algumas cartas a ele, Lucian, e nenhuma delas era assinada, em nenhuma delas a Anya assinara o próprio nome. Eram cartas para não serem entregues, mas que acabaram sendo, através do tempo das coisas guardadas. Lucian é nosso guardião, Eira ponderou e anotou, enquanto relembrava que ele guardava com o mesmo esmero e capricho as coisas que ela havia escrito. Então olhou de novo para o caderno. Ravensbrück era um nome horrível, reparou, assim como a sua letra, totalmente diferente da de Anya, que era uma letra exata, legível, redonda, caligrafada, minuciosa, como as notinhas pequenas nas pautas musicais, partituras abandonadas dentro de uma pasta, na beirada da mesa. Ravensbrück era um nome horrível, nome que ela não sabia o que significava mesmo depois de procurar no Google antes de viajar, percebendo que Ravensbrück podia ser três coisas. 1) Uma cidade na Áustria, onde Anya já estudava música há quase dois anos; hospedaria perecível de Eira e o irmão, visitantes. 2) Um campo de concentração nazista na antiga Alemanha oriental, perto de uma cidade que se chamava Furstenberg, dizia a wikipédia; e este campo, (ela já sabia por si, numa informação antiga) se especializara em receber apenas mulheres; decerto houveram homens, mas ele era um campo para matar mulheres. 3) Um sobrenome, sobrenome de gente famosa e ordinária na lista azul e democrática do Google, links que se referiam a fulano Ravensbrück, fotógrafos, biólogos, artistas, blogueiros, economistas, políticos, amigos, músicos... Que incrível, buscou a página de uma dessas pessoas, mas apesar de haver uma foto do Carl Ravensbrück, estava tudo naquele alemão austríaco, ilegível, cheio de creme, açúcar, maçãs cortadas.

Ouvia os passarinhos lá fora, talvez fosse também um ornintólogo, o fulano Ravensbrück, jogou no tradutor: Ra-vens-br-trema-u-ck. “Raven ponte”, dizia o resultado. Resolveu separar. Ravens Brück. “Corvos ponte”. Pensou que era improvável um ornintólogo que fosse interessado em estudar corvos, e desejou por algum tempo que naquela casa houvesse um computador com internet, talvez o tivessem, pensou em perguntar para a empregada (a casa era grande demais, um computador deveria haver), mas não falava a mesma língua que ela. Só a Anya, que conhecia três tipos de alemão, os guiava por ali. No mais, era inglês ou francês, ou aqueles escritos, todos na língua-madre de todos os três filhos, o português, Anya havia escrito: Querido Lucian, esta tendência de endeusar e amar muito as pessoas me destrói, quando nós endeusamos muito as pessoas é terrível por que eu não posso discordar delas, eu tenho medo delas, eu não posso me posicionar nem questionar nem destruir nada, então fica tudo pesado. Eu não posso. Quando Anya ficou sabendo das próprias palavras passadas, escritas há tanto tempos, ela riu e disse que não ia reler, e que Lucian deveria destruir tudo aquilo, mas Lucian era o guardião da história.

Através da janela estava o bosque, olhou, era um bosque austríaco de verdade, o bosque mais antigo de todos, sentiu vontade de sair; perdeu-a em seguida, teve vontade de voltar para os papéis de Anya. Os esboços eram pesados e faziam sentido demais. Eira escreveu – Escrever era uma cura. Uma espécie de reabilitação para a vida. Escrever era como usar óculos, talvez, ou levar consigo uma muleta, ajudante de uma perna ruim... Não, não! Que merda, Eira. Rasgou a folha de papel com o nome do campo de concentração, a data e o nome do irmão. A perna ruim, Eira levantou a calça e viu ali as cicatrizes do acidente antigo, a perna ruim era uma péssima metáfora por que era uma perna ruim de verdade, uma palavra física, que ainda doía de vez em quando, apesar do tempo, tudo ia continuar doendo de leve apesar do tempo. Perdeu de novo a vontade de ler os papéis de Anya, sentiu outro arrepio, este tempo beliscando cruel de novo a pele do braço, e se jogou na poltrona velha que já ajudara tanta gente a ler livros, ela supunha, porque não sabia nada de ninguém daquela casa que falava uma língua estranha, única, quase morta.

Anya estava diferente. Ficara bonita. Agora usava óculos, de vez em quando (não para tocar o violoncelo, mas para ler mapas e livros), cortara o cabelo, assumiu-os cacheados, mas parecia mais alta, um pouco mais cheia, mas não era uma gordura de barriga, era uma gordura de coxas, bunda e peitos, peitos descontrolados no decote, aqueles peitos de mulher fértil, ainda muito jovem. Anya parecia ser virgem, muito virgem e pura, como se os dias na Áustria branca tivessem tirado a morenice original que tinha na pele (“há tanto não via o sol”, dissera naquela manhã), como se ela tivesse aprendido a ser mais educada, mais tímida, mais silenciosa. O violoncelo, logo o violoncelo, esse instrumento indecente, obsceno, ela sempre gostou do violoncelo, não havia jeito, não houve nada além do violoncelo... Ainda haviam, porém, os olhos pretos, o sorriso cor-de-rosa, e o nariz de papai. Ela nunca iria esquecer o nariz de papai, ele havia colocado o nariz errado no rosto da filha mais nova. Era como uma palavra escrita de maneira equivocada. Olhou de novo através da janela, o sol estava mais alto. Se sentou para escrever, mas sentiu vontade de entrar no bosque. Escreveu de novo o nome da cidade, a data, e então o nome do irmão, Querido Lucian.

Estivera a vida toda longe de casa. Sabia disso há muito tempo. Dessa vez, fora a Viena, falar do pai a Austríacos, que a aplaudiram de pé, Lenny havia falado: o que você fez com o trabalho do seu pai foi incrível, parabéns, ele disse isso em inglês, e eles foram a um coquetel depois, e Eira foi cumprimentada por várias pessoas, assinou alguns livros, sorriu para umas fotos, que depois saíram publicadas num jornal, e ela percebeu como as próprias sobrancelhas estavam tristes. Estava também nos papéis de Anya: Quando ele morreu, eu quis morrer também, quero morrer há anos, estou cansada. Eira achou incrível aquilo. O pai havia morrido quando Anya tinha apenas treze anos e o papel-superfície da fala suicida e malvada não parecia ser tão velho assim, Anya tinha vinte e um agora. Uma reabilitação, uma habilitação... Os escritos não eram estranhos, parecia que era de quando ela publicara aquele livro, o primeiro livro que reunia o trabalho do pai, a escrita como cura. E então eles disseram, Lucian e Eira disseram ao Lenny que tinham que (queriam muito) ir a Ravensbrück ver a terceira parte da trupe, e Lenny disse, não se preocupem, meus pais têm uma casa de campo super-perto de Ravensbrück, e depois apareceu no hotel. Ele desenhou uma mapa. Ele nos deu as chaves. Lenny se chamava Lehnard Maiehoffer, e Lucian e ele haviam se conhecido na universidade, em Nova Iorque, por isso Lenny, Lenny estudando literatura, Lucian estudando regência, era uma boa dupla, de conversas, livros, cervejas e vômitos. Lenny voltou para a Áustria branca, mas eles nunca se separaram. Nunca mais se separaram. Intimidade. Lenny havia falado que havia um rio naquele bosque, e por mais que se assomasse à janela, por mais que... Procurasse o silêncio da água... não, não, não o apreendia, eram só passarinhos e sol e vento, nas folhas, devagar. Rasgou a página.

A peça do recital que Anya tocara na noite de ontem se chamava Quatuor pour la fin du temps, e pelo tempo corrente antes de começarem a tocar, Eira se aborreceu tentando traduzir o nome. Era uma peça querida, o violino, à esquerda, a clarineta, à direira, o violoncelo ao centro e o piano, um pouco atrás. Estava de frente para a irmã, na oitava fileira do teatro lotado. No quinto movimento, Eira chorou ao ver a Anya sozinha com o pianista, ela viu o braço de Anya subir e descer, com os dedos nus, e o rosto da irmã ia ficando muito vermelho enquanto ela tocava, por que era uma peça tão, mas tão triste que havia um silêncio lutuoso nela. Lucian falara, traduzindo o programa austríaco, que Messiaen compôs essa peça no cativeiro, e a primeira vez em que a executaram foi em um campo de concentração nazista chamado Stalag VIII A, que antes fora alemanha e agora era polônia, fronteiras. Ocupações. A peça terminava triste também, em silêncio, e era tanto silêncio entre as notas e ao final que as pessoas ficaram com bastante medo de quebrar aquilo, de aplaudir de verdade quando acabasse. Todos queriam o silêncio, o silêncio foi o bis, antes do aplauso. Bravíssimo! De novo, à janela, Eira percebeu o silêncio absoluto entre o pio dos pássaros, e ele era realmente completo e leve, vazio, como quando ficamos dois segundos sem respirar, quando bate de novo o arrepio e em seguida as pernas molengas.

O arrepio era a urgência de conversar com alguém: Que silêncio tenebroso esse dos pássaros, quis comentar com Lucian, e pensou em escrever de novo Ravensbrück, treze de julho, Querido Lucian, mas não queria mais rasgar e jogar o papel fora. Faltava tempo. O quarto começava a esquentar. Queria ver uma foto de Olivier Messiaen, imaginava-o um homem educado, tímido e silencioso como Anya, um homem de alma azul. Lucian disse que ele atribuía cores à música, e que havia um movimento (o sétimo) em que ele fazia um arco-íris com os sons. Voltou aos papéis da irmã, quase caiu no chão de tão fracas que estavam as pernas agora. Era injusto: na literatura prosaica, idiota e leve de Anya, Eira conseguia ver o próprio rosto. Ela é muito forte, a Anya, para também ter aguentado tudo que eu aguentei. Não suporto a idéia de encostar em você, Lucian, Anya havia escrito, todas as vezes em que eu encosto em você sinto algo de náusea. Mas mesmo assim te amo, e apenas toco o braço do meu irmão, é por que minhas mãos querem dizer algo a você. Todas as vezes em que eu tocaria em você para dizer algo, é quando vou escrever algo a você que não pode ser dito, e é sobre odiar o que é a vida, e quanto mais eu a odeio, mais preciso dela, e ela precisa de mim: para odiá-la? Para compreender um erro. Desordem de esboço. Quando o pai morreu, ela transcreveu todos os manuscritos. Agora, mesmo com Anya viva, ela podia transcrever também aqueles manuscritos para melhor conservá-los. Sempre aparecia um estudante agradecendo à transcrição nobre dos manuscritos do meu pai e pedindo para ver os originais, que ela exibia com gosto. Se houvesse um computador aqui para transcrever os textos de Anya, certamente, mas não, aquela era uma casa antiga. Uma casa morta. Lucian, você tem medo de encostar em mim?

Impaciente, voltou à poltrona; sem se suportar, ligou para Lucian. Ele não atendeu. Estava na universidade de Anya, com os professores de Anya e os colegas de Anya e a biblioteca de Anya e os amigos de Anya e os corredores de Anya. Voltou à janela. Na estante, havia um atlas. Folheou. Um livro, o Atlas, segurando o mundo em imagens em folhas, o mundo sobre os ombros. O mapa de Lenny, o haviam transcrito para o google earth, que mandava virar nas direções da estrada facilmente encontradas por um número que se parecia com um CEP. Acharam logo, a casa, o bosque. Na tela, qualquer um podia conhecer Paris sem ser convidado. Então foi interrompida, o telefone começou a vibrar na mesinha de apoio para os livros lidos pela poltrona. Atendeu, alô. “Alô, Eira, você me ligou?”, ele disse, “escuta, Lu, esses escritos que você deixou na mesa, de quando até quando a Anya escreveu isso?”, Eira perguntou. Lucian ficou um tempo em silêncio. “A Anya?”, ele disse, “como assim a Anya?”. “As folhas que você deixou sobre a mesa”, Eira repetiu. Lucian novamente não respondeu com rapidez. Ruído. Conversas de Anya, a voz da irmã austríaca ressoava no fundo. “Não, não, não”, Lucian disse, “não foi a Anya quem escreveu isso. Foi você. A Anya nunca escreveu nada assim”. Lucian, em seguida, falou que eles já estavam voltando para buscá-la para almoçar e passear pela cidade. Eira perguntou as horas. “Quase dez”, ele disse, e falou que ligaria em breve. Desligaram com um beijo.

Eira foi até a mala aberta no canto do quarto, tirou do corpo a calça e o casaco de moletom, colocado por cima do peito sem outra interferência de blusa ou sutiã, pôs um vestido preto do qual gostava muito, e de novo o moletom por cima. Meteu o telefone celular no bolso, e pegou o caderno e a caneta sem olhar para a mesa onde ficaram as coisas que ela havia escrito há anos, em uma viagem furtiva a Nova Iorque para ver a mãe, enquanto ainda se entregava ao trabalho de transcrever os papéis do pai, e sentiu náusea, a mesma náusea de quando encostava em Lucian sem querer, abriu a porta do quarto e desceu as escadas. Ainda viu a sombra da empregada num dos cômodos iluminados de sol (ela provavelmente arrumava uma cama ou espanava uma estante), antes de descer as escadas, atravessar a sala, a cozinha, chegar ao quintal onde havia uma piscina seca cheia de folhas velhas das árvores. Lenny disse que havia um rio dentro do bosque. O dia esquentara a ponto de fazer suar a mão que segurava o caderno com capa de couro falso. Mas o vento ainda era frio e cortava a pele das pernas por cima das cicatrizes. Se aproximou das árvores, preocupada em percorrer o caminho em que ainda havia sol antes da sombra absoluta. Um corredor de sol terminava na forma inexata e redonda da copa da árvore mais próxima. Folhas secas, no chão, ruíam e se amassavam enquanto eram pisadas. Não queria pôr os pés na sombra, não queria deixar a parte que era aquecida por aquele sol volumoso e alegre do verão, ela havia escrito a Lucian, ela havia escrito a Lucian, não era Anya, não confie no sol, Lucian, escrever é um processo de ida e volta. Do começo ao fim, repetindo os compassos obsessivamente até conseguir algo certeiro – o som ideal. O som que vai fazer mais sentido ali. O som “correto”, já ouvi dizer, mas correto é uma palavra incerta de se usar em todos os sentidos por que correto é uma palavra que precisa de um pilar de muitas palavras para ser sustentada. Então ela cai e se desmancha, o correto é leve, é leve como sol, ele não fica aqui conosco nunca. Não se pode confiar no sol, Lucian. Nunca confie no sol, não confie na música, mas assim, ainda não podia escutar o som da água, Lenny não falara uma mentira, havia um rio ali, ela sabia, havia um rio ali. Precisaria se aproximar mais para escutá-lo bem. Talvez pudesse até mesmo enxergá-lo. Entrou no bosque.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Anotações sobre uma peça anônima para piano



Eu sou uma estrangeira. Estou em um lugar que não é uma casa, é a casa de outra família e há um cheiro doce e forte, como o de lavanda ou de lençóis limpos. Há uma escadaria e acima dela, no corredor, há um quarto que foi destinado a mim. Durmo nele há algumas noites, mas sei que em breve devo tomar uma estrada e um avião, para nunca mais (ou por um tempo vasto) dormir nesta cama. Chove, de maneira esparsa, desde quando eu cheguei, e chove um pouco agora, daquelas chuvas duvidosas, uma umidade no ar que engana a gente. As pessoas desta casa são amigos da minha família (mas há algum laço de sangue, um parentesco mínimo, já que Jean-Luc está aqui, e ele é meu primo, o que aperta mais a corda na garganta) e todos nós perdemos uma pessoa: ou alguém morreu, ou aconteceu um divórcio. Talvez, alguma criança tenha morrido, apesar de eu escutar esse barulho frenético de crianças quase tristes na sala do andar de baixo. Estou brevemente mais jovem do que eu sou agora, visto um vestido que não me pertence mais, e minhas roupas são pretas. Ainda há umas flores lá fora, no jardim, mas são poucas, por que Jean-Luc disse que houve uma espécie de geada, a encontraram no amanhecer, matou a grama, vai matar a grama toda, ele disse como se realmente se preocupasse com a grama. Eu vejo do vidro o céu cinza do lugar e as gotas que aos poucos congelam contra o vidro, e em breve não vou mais ver nada disso. Dobro, a pedido de uma tia postiça, algumas roupas de criança (dos gêmeos que picotaram as partituras do Villa-Lobos, provavelmente, mas não posso rir disso agora, é uma música realmente muito triste, esta, não vou rir disso agora, vou rir depois), ajudo a fechar uma mala, recolho xícaras de um café. Jean-Luc entra pela porta e se senta de costas para mim, enquanto eu arrumo as coisas, e ele diz que talvez não tenha dormido, confessa: ele não sabe qual é o estado de consciência que ele possui, no momento. Fala do infinito de novo, “minha vida é recapitulada, o passado à esquerda, o futuro à direita – o futuro também está sendo recapitulado”, ele fala, ele diz de pequenas estrelas frágeis, estas cenas, ele diz que as imagens estão um pouco embaçadas. O que você está falando, eu digo, uma peça somente para piano tem este espaço para o nosso diálogo. Tem, Jean-Luc responde, ainda de costas. “Este lugar é gelado”, ele diz, “nós já vamos”, eu digo. Ele se levanta, peço que ele toque de novo a música em questão, e ele diz, essa música é muito importante para mim. Eu digo: Pergunte ao seu professor quem compôs isto. Ele não sabe quem é o compositor, só sabe ler a partitura, de frente pro piano. Ele não diz nada. Ele olha pela minha janela. Nenhuma esperança. “Parece que vai começar a nevar, não?”

sexta-feira, 16 de julho de 2010

história do fim


(L., você me lembrou hoje no café de que eu tinha escrito um conto para você, e aqui você o tem. Este é o primeiro de todos, e ele sozinho haveria de se chamar História do Fim, mas aconteceram uns desdobramentos, espero que você entenda, e esta moça – o nome dela é Maria Lúcia, Malu ou Marilu, como alguns a chamam – acabou por escrever mais de uma carta a seu primo e confidente Jean-Luc. Porém, aqui está a carta primeira, longa, o conto original, claramente corrigido, mas ainda sincero. Um abraço apertado pra você aí, e um agradecimento pelas palavras que você me deu depois que eu cheguei em casa. Não me roubou um momento feliz e, em contraponto, me presenteou com alguns minutos da mais sincera alegria de reafirmar como você escreve bem.)




Minha planta está doente, Jean-Luc.

Não – não, eu minto, esta planta não é minha, mas eu acabei por chamá-la assim, como uma posse ou uma coisa que eu amava bem quando resolvi deixá-la vivendo em minha casa. Não a recebi como um presente nem paguei por ela, tampouco lhe dei um nome, mas me afeiçoei o bastante para afinal regá-la todos os dias por volta das seis da tarde, quando abandono na área de casa qualquer roupa suja de um dia de trabalho e, às vezes, fumo um cigarro (aí está, cedi à propensão completa ao tabagismo em favor de sua satisfação) quando as coisas não andam muito bem. A planta, moribunda, é do meu ex, um detalhe vivo que ele se esqueceu de levar deste apartamento. Há muito tempo, quando ele me deixou, pensei em jogá-la fora (ou, mais dramática: quebrar o vaso, arrancar as folhas e atear fogo aos galhos), mas percebi que isto seria uma injustiça a outro ser. Era como devorar o filho alheio. Então, resignada (perdão pelo paralelo, mas era “como quem engole veneno”), passei a regar a terra como se eu não tivesse tido escolha. Houve a resolução de que um dia eu deveria levar o vasinho de volta para a casa do meu ex, mas acreditei que seria um feito excessivo, ele provavelmente não se lembraria da planta (a História se esquece do homem e os homens retribuem esquecendo a história, trate de manter sempre disso em frente, Jean-Luc) e de repente os dias começaram a ficar chuvosos demais. A plantinha foi gostando daqui e agora, além da água às seis, tenho que lidar com esta doença ainda sem conseguir dizer que é uma doença e que pertence a mim.

Reparei que da última vez que você me escreveu (uma mensagem no domingo dezesseis de junho às oito e catorze da noite) havia um símbolo de ponto e vírgula entre as frases e achei engraçado por que Lilya tem o mesmo sinal tatuado no pulso esquerdo. Você percebeu este detalhe? Foi por isso, não foi? O pretérito mais-que-perfeito é o tempo verbal preferido da Lilya, enquanto o ponto e vírgula é o sinal preferido dela, você notou, não notou? Pulso fino de moça fina. A história não é tão refinada assim, prometo: Lilya tentou se matar e depois que sobreviveu, mandou bordarem aquele ponto e vírgula bem em cima da veia viva do pulso; se você quiser sentir o pulso dela batendo está ao alcance da sua mão – encoste os dedos sobre a pele e perceba aquela vibração que ensinou o ritmo aos homens, sim, ela existe, esta mulher está viva. O suicídio foi a pausa que ela teve que tomar; talvez você tenha que entender essa pausa enquanto estiver interessado nela. Seus interesses, Lilya, um café, uma pequena notícia, uma breve fofoca, uma troca incessante de discos e recortes de livros, ou cartas breves (nem tanto...) escritas um ao outro entre porres e partituras, ou para me entregar um presente de aniversário velho e me fazer sorrir em frente a algo que eu nunca esperava que você faria. Somos mulheres, Jean-Luc. Não existimos. Tudo nos afeta.

Falando dos outros – a irmã mais jovem da Lilya, a Gisela, aquela que é orientanda da sua mãe, acabou de pôr fim em um namoro de quatro anos. Estamos todas um tanto sentidas, é necessário frisar. O rapaz se chama Cadu (Carlos Eduardo) e é um grande amigo meu. Ele está terminando um mestrado em história e a Gisela, como você sabe, logo se forma em arquitetura. As dissertações, os TCCs, os empregos escravos, acho que quando tudo aquilo acabasse (acredito que eles mal sabem o que é tudo aquilo), planejavam se casar, ou pelo menos ir morar junto, como é bem de praxe entre nós, liberais, estudantes de ciências mais ou menos humanas e seus desdobramentos, pessoas que se consideram mais livres que as outras, de certa forma; habitariam um apartamento de primeiro andar, subvalorizado, numa região que fora chique em tempo áureos, numa rua de velhos, num bairro de árvores, mas isso não vai mais acontecer. Eis o fim. Eles estão terminados, senhor, e o futuro prescrito nos sonhos pré-conjugais serão Nada a partir de agora.

Sabe o que mais me impressiona nisso tudo? Eu passei o último fim de semana com Cadu e Gisela enquanto eles ainda eram um casal. Na sexta, Cadu buscou Augusto e eu em casa e nós fomos ao teatro com a Gisela, e alguns amigos (o Flávio inclusive perguntou por você e eu disse que estava bem e duvidei silenciosamente de minhas palavras enquanto eu pensava em seu trôpego e gago coração, desejando alguma doçura de Lilya). Ele havia acabado de fazer uma farta barba que mantivera por alguns meses e se parecia com um moleque, irritado por que a Gi se atrasara para vestir na indecisão das mesmas roupas escuras, um costume de todo fim de semana. Era uma peça sobre fome e merda. Boa, mas não excelente. Depois, de carro, fomos àquele bar que você gosta, onde a gente pode ouvir vinil a noite toda. Falamos todo o tempo de viagens bebemos cerveja, comi alguma coisa que eu não lembro muito bem o que era. A mãe do Cadu, por volta das dez, ligou e pediu para falar com a Gi. Gisela havia acabado de voltar da Espanha (você sabe disso, não sabe?) e trouxe um azeite especial para a sogra. Ouvi agradecimentos do outro lado do fone e as duas conversaram por um bom tempo, sem faíscas, e eu sempre soube que o relacionamento era assim, gente madura. Ficamos ali até as duas da manhã, acho que o Cadu, o Flávio e o Guto queriam ficar mais, enquanto Gisela e eu bocejávamos já fazia uma hora. Nos deixaram em casa. No dia seguinte, Augusto fez um almoço, matamos umas garrafas de vinho. Fazia frio. (Às onze da manhã fiquei parada no corredor, com o telefone na mão, pensando se eu deveria te ligar, mas resolvi que não, melhor não). Ficaram todos aqui até quase sete da noite. Então, depois que as mulheres lavaram os pratos enquanto os homens conversavam sobre música na sala, todos partiram (inclusive o Augusto, a mãe dele tá no hospital, mas não é nada grave não, juro, ele só foi dormir lá e no dia seguinte ela recebeu alta e nós recebemos paz) me vi sozinha com a planta, que já dava sinais de estar mal. Enfim: tomei um banho e dormi bastante. Cadu e Gisela terminaram quando eram quase oito deste mesmo dia, dentro do carro estacionado na porta da casa dela. Talvez tivesse sido melhor deixar essa injúria para o domingo. Domingo, dia de injúria, Gisela passou chorando, mal dormiu ou dormiu muito, não sei, não falei sobre isso com ela, apenas conversamos o enorme sentimento de perda que há nas coisas. Aquilo não foi só se despedir de um namorado, foi dar adeus a vida que viveu nos últimos tempos. É como se a gente morresse e chorasse o próprio luto antes de (ai, como eu odeio a superação) nascer de novo.

Da última vez que vi Gisela, olhei para aquela cara ainda com o semblante consumido do choro magoado da separação, recebi um abraço bom e depois, mais tarde, num desses silêncios-pausa de quando estávamos conversando, ela levantou os dedos e deitou-os sobre o decote da blusa e meio desolada disse uma coisa muito horrível como “ai, meu coração”. Não tive coragem de comentar a beleza daquele ato – verbalizar aquela dor que não é física, mas que acaba por se desdobrar naquilo, o órgão do pulso. Depois, perguntei à Lilya como ela estava com isso tudo e ela me disse que Gisela “estava longe”. Pelos próximos dias, a Gi vai sentir uma angústia repentina e decrescente ao entardecer. Hora da nuvem-negra, ela vai repetir enquanto quase tem uma parada respiratória. Depois, ela vai descobrir que ao tomar um banho quente nesta hora e esfregar a pele com uma bucha vegetal bem dura, a angústia se dissolvia e começava a sair de cima dela. Por um tempo também ela terá medo de freqüentar os mesmo lugares de antes, os cinemas e bares, com medo de topar com Cadu (e uma eventual outra mulher que ele haveria de experimentar...), medo de andar na rua sozinha, medo de falar o nome dele em voz alta, ou de se esquecer, de repente e para sempre, o número do telefone da casa dele. Sei (sabemos) que em pouco tempo essa angústia irá desaparecer e depois que um pouco de tempo passar, ela se lembrará da existência de Cadu com pouca freqüência, com frases, objetos perdidos, fotografias, aquela música que eventualmente tocava no rádio e ele gostava muito. Então, Gisela há de rir de si quando falhar ao se lembrar do rosto, da voz e até mesmo do nome completo de Cadu. As mulheres não se esquecem com tanta freqüência, mas elas normalmente superam a história (superam, de novo, que inferno) antes que a Histórias as supere. De Cadu, porém, recebi um vestido escuro e florido que pertence à Gisela e que ela esqueceu na casa dele. Senti compaixão e resolvi lavá-lo para que no tecido não reste coisa alguma dos dedos de Cadu, do perfume da casa de Cadu, meu deus.

Digo, não é à toa, Gisela e Lilya têm os pés calejados desse terreno do fim. Não só as duas, mas principalmente Lena, a irmã mais velha, Lilya já me contou a respeito do pai das três. Falou que quando ele e a segunda mulher (o trio de cromossomos XX é fruto da primeira mulher de todas) se divorciaram, foi a Lena quem ajudou a encontrar uma casa, tratar do aluguel e dos móveis, já que a ex, aquela puta, entre a depressão e os maus-hábitos alcoólicos do pai, acabara por levar tudo sem nem ter um advogado direito. Lena escolheu um bom lugar, um apartamento de primeiro andar, subvalorizado, numa região que fora chique em tempo áureos, numa rua de velhos, num bairro de árvores, lugar bem parecido ao sonho passado de Cadu e Gisela, temos que admitir. Pois, então, passaram-se três meses daquele divórcio difícil, palhaçada, e o pai já os recebia para um almoço de domingo. Nesta época, Lena já era casada e grávida celebrada de seis meses e duas semanas, cercada de mimos e roupinhas de bebê pelo futuro avô, carinhoso e amável, aguardavam o primeiro de uma boa linhagem de netos, já que o homem tinha cinco filhos, três desta, dois da outra, e isso sim, isso sim era constituir família. Então, numa terça-feira qualquer, Lena passou ali para deixar no armário uns lençóis que havia comprado (até eles, a ex-maldita...) e ao entrar no quarto do pai, encontrou um par de sapatos de mulher à beirada da cama. O chuveiro estava ligado e a porta estava fechada. Lena, puta, perguntou o que era aquilo. O pai ficou sem graça, sim, enquanto os filhos ainda estavam sem chão, ele arrumara mais uma mulher onde cravar os dentes.

Então, eu me lembro de você no meu sofá. Você falando que ainda tem medo de dormir por causa do divórcio dos seus pais, malas feitas à noite. Aquela briga que quebrou o dente do seu irmão mais novo ficou na minha mente, num resquício de você falando de como era triste, de como foi difícil superar aquilo, e talvez você nem tenha superado direito, seu fraco, ainda tem essa úlcera no estômago e uns remédios para dormir de vez em quando, principalmente aos domingos, com os cigarros cubanos e um monte de sambas, e um monte de palavras que ainda não foram escritas. Você me disse que viver testava sua paciência, eu disse que o abandono era uma palavra legitimamente espanhola enquanto você insiste em estudar alemão, francês e o piano, seu grande erudito. É, querido, talvez nós nunca esqueceremos. Eu respeito o nada, este grande Nada que você ama, seu infinito guloso, mas você sabe, nem aquela planta viveu para sempre na minha mão, nem aquele casal que a gente achou que teria filhos cumpriu uma reta. Agora olho a planta, o vestido de Gisela, olho o sofá em que conversamos naquela noite. Penso em pegar o telefone e avisar meu ex depois de quase três anos sobre o estado de saúde da planta dele. É, talvez eu devesse avisar a ele. Talvez ele já se esqueceu dessa planta mesmo, para sempre. Mas eu nunca sei o que fazer com as coisas quando elas morrem.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Bienvenido



Jean-Luc, repito, você é sempre bem recebido em minha casa. Lembro-me com freqüência de uma pequena cena, de quando o interfone tocou e o porteiro disse o seu nome, o pessoal já estava aqui bebendo e conversando desde sete da noite (já eram por volta das nove? – tempo turvo), eu falei, pode subir, e quando eu abri a porta, vi você, parado, com uma garrafa de vinho na mão e um jornal dobrado ao meio debaixo do braço. Regalito, você disse ao estendê-lo. Era o exemplar do Clarín do dia cinco de junho que você trouxe para mim de Buenos Aires. Em folheá-lo posteriormente, não resisti em olhar a previsão do tempo. No verso da primeira página, encontrei o dia ensolarado: um sol redondo e amarelo com pequenos raios em volta, sol bem parecido com o centro da bandeira argentina; temperatura mínima, sete graus, máxima, dezoito, mas talvez isso seja uma mentira. Umidade: setenta e nove porcento. Depois, você me disse, que num dia desses (quem sabe o próprio dia do jornal) foi levado por um argentino que se chamava Santiago para um bar minúsculo com setenta pessoas espremidas lá dentro, onde as prateleiras não eram espanadas desde mil novecentos e desde-então, e que eles começaram a cantar uma espécie de tango improvisado ali num período da noite, mas não entendi muito bem por que nesta hora eu estava na cozinha, preparando o jantar para servir a vocês. Não sei – talvez cada palavra em cada carta que te escrevo seja uma ode à você, ou um elogio ao tempo, um elogio à nossas conversas. Mas eu me frustro, você sempre me manda ir com calma, Jean-Luc, tentar não enlouquecer tanto diante deste cotidiano de coisas incríveis, mas eu continuo me precipitando e é assim que eu destruo as coisas. Talvez, destruir seja uma forma de suportar. Enfim, ultimamente, apesar das evidências (o CD do Bartók comprado em Bs. As., o jornal, uma blusa de frio que você me emprestou aquele dia no bar quando o Augusto começava a dar aquelas estranhas dicas de vida a vocês, rapazes e eu queria ir embora pra casa), só nos resta música e narrativa quando um acontecimento chega ao fim.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

morada



Dessa vez em que ficamos separados por um mês, eu estava num entardecendo com meu corpo cheio de sal e areia, e a gata da tia se enroscando nas minhas pernas. Eu esperava tomando cerveja na varanda de casa e ele ligou, o sinal ruim da distância. Disse que se esquecera de como eu era, de como era meu cheiro e meus olhos, que de repente sentira um desespero e precisava ouvir minha voz para se lembrar e mesmo assim não conseguia ter idéia: talvez como esquecer falas parado no centro do palco, pontuou. Ou como aqueles caras na guerra, que têm uma perna arrancada e não sentem dor, e eu achei bonito, disse que era uma falta tão, mas tão grande que nem se sentia mais.

Antes de ir dormir reencontrei álbum do casamento na cabeceira da cama, fotografias pequenas que um amigo havia feito com uma câmera analógica e rolos de filme preto e branco e de um colorido falso, opaco, embrutecido; uma festa pequena pra bastante gente, que durou caixas e caixas de cerveja das três da tarde até as três da manhã no quintal. A poeira se assenta e aquilo que antes eram cômodos vazios cheios buracos de outras pessoas, torna-se de repente a nossa morada.

terça-feira, 15 de junho de 2010

literatura comparada



Havia algo de estranho em tudo, algo de ancestral, aquilo dos poemas medievais, quando os eu líricos femininos (sempre escritos por um homem, dizem) cantavam “onde está o meu amigo? Quando volta o meu amigo?” para aquele que havia partido num navio (Ulisses de Penélope) enquanto ela esperava e falava à natureza da saudade – Saudade, já havia essa palavra espinhosa? Já se havia cunhado o conteúdo doído da casa vazia sem a voz do outro? Cidade vazia sem os cabelos do outro, cidade sem colo. Antes, amigo, essa palavra, Caio F. já havia narrado essas odisséias duplas e dúbias, dois amigos pela noite, dois amigos vivendo em cidades sem colo, e então um abria a porta do táxi para o outro entrar. Quando as coisas, a noite, tudo chega ao fim, uma rodoviária, um cheiro estranho e cinza de prédio antigo e despedida, para deixar-nos nesses cantos de saudade e de espera. Meu amigo, Hermes, do outro lado de um oceano, guarda o sabor doce de uma pêra.

(para Léo e Schiavo)