Você se lembra daquela foto que tiraram de você no dia que você ia me pedir em casamento? Foi certo, o nervosismo te fez beber demais, e eu adverti, eu disse o que aconteceria. Prodigiosa língua. Você vomitou várias vezes e te levamos para deitar na cama do Marcel, que, também bêbado e hilário, pegou na sua bunda e tirou uma foto sua deitado de lado, semiconsciente e nervoso, você com o dedo do meio levantado. Posteriormente, recebemos a fotografia e ele escreveu atrás "cu de bêbado não tem dono, heim, Théo?". Enquanto você dormia naquela noite, profundo e humilhado, decidi chamar um táxi para nos levar para casa enquanto quase amanhecia e quando peguei o seu casaco, caíram do bolso duas alianças ruidosas no chão de madeira. Dentro da maior, havia meu nome escrito. Guardei-as no lugar. Três dias depois, enquanto o vinil chiava o fim da música (talvez tal barulho me faça manter tão antigo hábito) após apenas um copo de uísque, você se ajoelhou, tão piegas na minha frente, no chão da sala.
quarta-feira, 30 de setembro de 2009
dias amenos #2
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Você se lembra daquela foto que tiraram de você no dia que você ia me pedir em casamento? Foi certo, o nervosismo te fez beber demais, e eu adverti, eu disse o que aconteceria. Prodigiosa língua. Você vomitou várias vezes e te levamos para deitar na cama do Marcel, que, também bêbado e hilário, pegou na sua bunda e tirou uma foto sua deitado de lado, semiconsciente e nervoso, você com o dedo do meio levantado. Posteriormente, recebemos a fotografia e ele escreveu atrás "cu de bêbado não tem dono, heim, Théo?". Enquanto você dormia naquela noite, profundo e humilhado, decidi chamar um táxi para nos levar para casa enquanto quase amanhecia e quando peguei o seu casaco, caíram do bolso duas alianças ruidosas no chão de madeira. Dentro da maior, havia meu nome escrito. Guardei-as no lugar. Três dias depois, enquanto o vinil chiava o fim da música (talvez tal barulho me faça manter tão antigo hábito) após apenas um copo de uísque, você se ajoelhou, tão piegas na minha frente, no chão da sala.
Você se lembra daquela foto que tiraram de você no dia que você ia me pedir em casamento? Foi certo, o nervosismo te fez beber demais, e eu adverti, eu disse o que aconteceria. Prodigiosa língua. Você vomitou várias vezes e te levamos para deitar na cama do Marcel, que, também bêbado e hilário, pegou na sua bunda e tirou uma foto sua deitado de lado, semiconsciente e nervoso, você com o dedo do meio levantado. Posteriormente, recebemos a fotografia e ele escreveu atrás "cu de bêbado não tem dono, heim, Théo?". Enquanto você dormia naquela noite, profundo e humilhado, decidi chamar um táxi para nos levar para casa enquanto quase amanhecia e quando peguei o seu casaco, caíram do bolso duas alianças ruidosas no chão de madeira. Dentro da maior, havia meu nome escrito. Guardei-as no lugar. Três dias depois, enquanto o vinil chiava o fim da música (talvez tal barulho me faça manter tão antigo hábito) após apenas um copo de uísque, você se ajoelhou, tão piegas na minha frente, no chão da sala.
segunda-feira, 28 de setembro de 2009
post-it amarelo na sua vida
Fui abraçar Anna e recuei. Ela usa o mesmo shampoo que você, o que faz com que vocês dois tenham o mesmo cheiro bom, mas que passou a ser insuportável por ser o seu cheiro. Fazia tempo que eu não me lembrava de você, e logo percebi que aquele era o início de uma terça-feira. Já te expliquei como as terças-feiras são o pior dia da semana. Se o telefone toca numa terça-feira, é um desses caras do telemarketing querendo vender celular. Numa terça-feira há os piores engarrafamentos, as unhas quebram, esmalte descasca, eu me olho no espelho e me acho horrível. Cabelo embaraçado. Perco minhas coisas favoritas. Tenho prova no dia seguinte. Não sou convidada para uma festa. Fico doente.
sábado, 26 de setembro de 2009
messenger
Laurra. diz:
toda vez que eu escrevo ``mijo`` no word, ele sugere trocar por ``urina``
FNORD! diz:
sério?
e bosta? ele sugere fezes?
Laurra. diz:
nao
ele aceita
cagada ele tb aceita
toda vez que eu escrevo ``mijo`` no word, ele sugere trocar por ``urina``
FNORD! diz:
sério?
e bosta? ele sugere fezes?
Laurra. diz:
nao
ele aceita
cagada ele tb aceita
quinta-feira, 24 de setembro de 2009
dias amenos #1
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Há um momento em que eu odeio. Théo odeia esse momento – eu quebro. Já desfiz janelas copos já se foram cristaleiras desmanchei o vidro como se ele fosse areia de novo. Areia na pele vira sangue. Depois de tal quebra, há o procedimento são de juntar todos os estilhaços, embalá-los em papel do jornal de anteontem e jogá-los no lixo, em segurança, para que não machuquem nem o lixeiro nem mais ninguém. Eu me recomponho neste trabalho. E então, exausta, sinto as costas doendo e me recosto no sofá enquanto a consciência esvai.
(foto: paleta da Ana Paula, diadesses, no atelier)
Há um momento em que eu odeio. Théo odeia esse momento – eu quebro. Já desfiz janelas copos já se foram cristaleiras desmanchei o vidro como se ele fosse areia de novo. Areia na pele vira sangue. Depois de tal quebra, há o procedimento são de juntar todos os estilhaços, embalá-los em papel do jornal de anteontem e jogá-los no lixo, em segurança, para que não machuquem nem o lixeiro nem mais ninguém. Eu me recomponho neste trabalho. E então, exausta, sinto as costas doendo e me recosto no sofá enquanto a consciência esvai.
(foto: paleta da Ana Paula, diadesses, no atelier)
sexta-feira, 18 de setembro de 2009
Ouviu? Barulho de grito. Vizinho brigando. Tem que fazer muito silêncio para entender o que eles tão falando. Cachorro. Tá ouvindo? Ele fala mais alto. Piranha. Vadia. Sai daqui. VADIA. Nojento. Até começarem a atirar coisas. Daí é onomatopéia atrás de onomatopéia. Quarta-feira passada baixou até polícia, eles nem se separaram, dois dias depois já tão brigando de novo. Porra. Se um cara gritasse assim comigo eu nem ia continuar prestando atenção no que ele estava gritando. Eu ia é ir embora.
quarta-feira, 16 de setembro de 2009
Nanda
(pro Rafo e pra Nanda, obviamente)
Falou com ela que queria ter um filho com ela, que se não fosse com ela era melhor nem ser, nem envelhecer, nem ter mais vida, e que sabia que tantos homens já haviam pedido aquilo para tantas outras mulheres, no campo da aceitação ou da recusa, as coisas começaram a acontecer. Que tinha sorte nas amizades que carregava pela vida, e que só podia enxergá-la parada de costas perto da cerca, usando vestido e galochas, enquanto no fundo uma mangueira amadurecia seus frutos perfumados; era setembro e cada folha que caía no chão por chuva trovoada granito ou acidente era uma fotografia nova. Ela não entendeu. Pensou que se referia à câmera em cima da mesa, ou ao desespero que não deixava unhas crescerem, patamar além do amor, além de qualquer coisa de passagem de tempo dos mais uns do relógio. Teu, teu medo de perder a juventude, ela disse, ele vinha do mar ancestral onde surgiu a vida de cada peixe ossudo que devoraram num almoço entediante de família (ele tinha quatro irmãos) enquanto ela nascera com o cheiro da terra, a sola das galochas manchadas de vermelho do sangue ferroso do lugar que haviam escolhido para viver para sempre. Para sempre, ela poderia dizer. Aos dezoito, quando ele disse por primeiro de seu medo de envelhecer, seu medo de morte, ela manteve um olhar duro e repressivo que ele pensou ser raiva, mas, posteriormente, desvestindo o avental do laboratório (sujo de água de um aquário cheio de águas vivas), brincou que ela ficava com raiva de qualquer coisa, mas não era. Não era raiva.
Quando tu me disse que tinha medo de envelhecer, eu quase chorei. Ouviu? Eu quase chorei. Não fiquei brava não. É por que eu odeio te ouvir falando do que tu odeia; do que te fere.
Disse que não precisava ser um filho em si, mas eles deveriam ter algo juntos, dum degrau melhor que o amor, que a possessão, que a velhice e a morte que alcança os braços de cada um, e assusta. Daqui a cinqüenta anos, diria, talvez. Daqui a cinqüenta anos, se bater essa tua tristeza de novo. Pensa em mim. E aí tu vai ver que não envelheceu nada. Olha só, pegou a câmera e tirou uma foto – o cabelo dele estava despenteado, telefonema urgente às sete e meia de uma terça-feira dava nisso, pressa, a camisa amarrotada por que o ferro de passar roupa dera um curto-circuito e quando ele ia concertar, simplesmente desaparecera nas entranhas de uma casa onde só moravam estudantes.
Hoje, absolutamente hoje, é eterno, ela disse. Eu guardei. E eu vou mostrar pra todo mundo quando tu tiver muitos anos. E daí a gente vai ver que tu não mudou porra nenhuma, tá ouvindo? A gente não vai ter envelhecido não.
Eu juro, eu prometo.
Pode ouvir ao longe o barulho castanho das galochas sobre as folhas que caíram. Do lado de cá, um cachorro a acompanha.
Gosta dos bichos, como eu.
Vamos adotar outro vira-lata então.
Tá chorando de novo. Ouviu? Chorando de novo.
Que bonita que ela é.
Não chora mais não, Nanda.
Falou com ela que queria ter um filho com ela, que se não fosse com ela era melhor nem ser, nem envelhecer, nem ter mais vida, e que sabia que tantos homens já haviam pedido aquilo para tantas outras mulheres, no campo da aceitação ou da recusa, as coisas começaram a acontecer. Que tinha sorte nas amizades que carregava pela vida, e que só podia enxergá-la parada de costas perto da cerca, usando vestido e galochas, enquanto no fundo uma mangueira amadurecia seus frutos perfumados; era setembro e cada folha que caía no chão por chuva trovoada granito ou acidente era uma fotografia nova. Ela não entendeu. Pensou que se referia à câmera em cima da mesa, ou ao desespero que não deixava unhas crescerem, patamar além do amor, além de qualquer coisa de passagem de tempo dos mais uns do relógio. Teu, teu medo de perder a juventude, ela disse, ele vinha do mar ancestral onde surgiu a vida de cada peixe ossudo que devoraram num almoço entediante de família (ele tinha quatro irmãos) enquanto ela nascera com o cheiro da terra, a sola das galochas manchadas de vermelho do sangue ferroso do lugar que haviam escolhido para viver para sempre. Para sempre, ela poderia dizer. Aos dezoito, quando ele disse por primeiro de seu medo de envelhecer, seu medo de morte, ela manteve um olhar duro e repressivo que ele pensou ser raiva, mas, posteriormente, desvestindo o avental do laboratório (sujo de água de um aquário cheio de águas vivas), brincou que ela ficava com raiva de qualquer coisa, mas não era. Não era raiva.
Quando tu me disse que tinha medo de envelhecer, eu quase chorei. Ouviu? Eu quase chorei. Não fiquei brava não. É por que eu odeio te ouvir falando do que tu odeia; do que te fere.
Disse que não precisava ser um filho em si, mas eles deveriam ter algo juntos, dum degrau melhor que o amor, que a possessão, que a velhice e a morte que alcança os braços de cada um, e assusta. Daqui a cinqüenta anos, diria, talvez. Daqui a cinqüenta anos, se bater essa tua tristeza de novo. Pensa em mim. E aí tu vai ver que não envelheceu nada. Olha só, pegou a câmera e tirou uma foto – o cabelo dele estava despenteado, telefonema urgente às sete e meia de uma terça-feira dava nisso, pressa, a camisa amarrotada por que o ferro de passar roupa dera um curto-circuito e quando ele ia concertar, simplesmente desaparecera nas entranhas de uma casa onde só moravam estudantes.
Hoje, absolutamente hoje, é eterno, ela disse. Eu guardei. E eu vou mostrar pra todo mundo quando tu tiver muitos anos. E daí a gente vai ver que tu não mudou porra nenhuma, tá ouvindo? A gente não vai ter envelhecido não.
Eu juro, eu prometo.
Pode ouvir ao longe o barulho castanho das galochas sobre as folhas que caíram. Do lado de cá, um cachorro a acompanha.
Gosta dos bichos, como eu.
Vamos adotar outro vira-lata então.
Tá chorando de novo. Ouviu? Chorando de novo.
Que bonita que ela é.
Não chora mais não, Nanda.
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