quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Hilda (dias amenos)

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Está bem aqui o que foi o desejo (hoje murcho) – foi buraco, abismo, ausência, mãos conduzindo o vácuo, desrespeito dos sentidos, perda dos olhos, sufocamento da fala e do tato. Aqui está o que foi o desejo: A questão de saber quem ele é, os nomes que lhe damos, pra onde se desenvolve. Não vai. Desejo mora no excesso, mora na magreza miserável do tato, pecado mesquinho e idoso. Agoniza, bicho sedado no meio do mato, o tornozelo quebrado da vítima. Desejo é o nome da parede onde eu escrevo seu nome de novo.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

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Foi quando os ratinhos mortos começaram a aparecer: vinham um tanto maltradados, na cozinha, duros; e pelo tamanho ainda deviam ser filhotes, ou no máximo adolescentes. Apareciam de manhã, ou à tarde, depois de quando eu me ausentava e em seguida chegava no meu exausto horário marcado de voltar pra casa. Eu não os via vivos em nenhum corredor ou buraco do meu apartamento, eles apenas apareciam mortos, unicamente mortos, como se atingissem minha cozinha só para morrer - e neste assassínio através do meu veneno, eles me buscavam, como um afogado que sai pela praia depois de tanto mar, respira duas vezes e acaba como um alívio olhando fixamente para o oceano bonito que percorreram, logo depois de perceber a enorme inundação que possui por dentro.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

do resto de ontem

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"Deixei pra você alguns poemas que sobraram", disse, pelo telefone, como se não estivesse se referindo a um caderno de poemas (algumas de suas páginas arrancadas, outras soltas de outros cadernos), mas como se falasse de maçãs, ervilhas, roupas, vinho, lenços ou outros objetos que de fato podem sobrar. Quando algo sobra, sobra de onde, ou do quê. Um livro de poemas, que publicaria, deixou para mim na gaveta do quarto tudo que não se encaixou, tudo que me pertencia, antes de voltar pr'o Recife e seus dias suados. "Eu vou pegar pra mim o que você perdeu", ele escrevera nas páginas gastas, com resto de digital na tinta da caneta que estourou e o cafézinho da tarde, "e ficar para mim". "Eu vou cuidar do que você abandonou", continuava noutra linha. Falava do reflexo arco-íris de sol na bolha de sabão das crianças naquela tarde que custava a entardecer (novembro), do cheiro de peixe assando (domingo), duma planta que morreu. Chamou os dias de resplandecentes. Das noites estranhas, que nem tinham direito cara de noite, dizia que era buraco de fechadura, prodígio do corpo, que morava tanto nos sulcos das digitais dos dedos quanto nos túneis negros dos olhos.

sábado, 14 de novembro de 2009

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Marina encontra o melhor conforto nas listas de coisas para fazer. Essa lista imperativa (porém com seus verbos sempre infinitivos - fazer trabalhos, comprar maçãs, hidratante, xampu, bombril; devolver os livros na biblioteca, ir a tal lugar, marcar dentista, ligar para fulaninha que hoje é aniversário dela)a organiza de volta para a realidade, o tempo de uma semana sem distrações. Meu Deus, já é novembro, Anna diz noutra de suas terças-feiras enjoadas, passando pela vitrine verde e vermelha, cheia de neve falsa do natal. Calor absurdo, chuvas irritantes, na fila do bandejão o Érico diz que se sente como um saquinho de chá colocado na água fervendo. Foi ele quem ensinou Marina a colocar o cê cedilha com o teclado americano do laptop e no fim da sua lista de coisas para fazer (estamos todos fodidos & juntos nessa), colocou a palavra DORMIR em caixa alta, seguida de um ponto final. A chuva começa (assim que Marina desce do ônibus, querido Murphy), corre para dentro do prédio - já se encharcando - e sobe todos os andares à pé (a luz acabou, querido Murphy). Lá em cima, suada, se encaminha para aquele platô suicida, cinza e vazio, inundado de água que dilui o cocô dos pombos e a fuligem. A chuva molha Marina, e consequentemente a lista deixada no bolso de trás dos jeans, dissolvendo tarefas como lavar roupa e cortar o cabelo. O prazer de se matar jamais seria o mesmo que aquele de riscar com uma caneta de cor diferente qualquer um daqueles afazeres verbalizados. Marina, com o cheiro ácido da chuva, desce dali e se senta na escrivaninha para compor mais uma lista

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

expectativas

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Antes de meter o pé no cimento do exílio, vou enumerar novamente os dias; falta quanto?, e vou anotar em algum lugar. Aqui, tem trator lá fora destruindo o mundo, sirene, dilúvio bíblico. Em breve, vou me esquecer de novo no ponto de ônibus errado, em breve vou voltar a quebrar unhas, de novo, vou fazer tudo para que ocorram choques, olho vazio, falar demais. Vai restar cicatriz no corpo, quem vem me olhar na cara encontra.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

sintomas

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Eu te amo há exatamente trinta e seis dias; o que já faz com que eu perceba que Platão tem falado demais comigo. Em breve, sei que começarei a copiar poemas de amor e guardá-los em caixinhas espalhadas pela casa para que eles não me deixem esquecer nunca. Eu não sei mais me vestir sozinho, eu parei de me olhar no espelho. Você entra na biblioteca carregada de livros, faz alguma piada depois que me ouve reclamar. O nervosismo ou bem faz que eu me cale ou mal faz com que eu fale demais. Eu olho. O meu foco se perde dentro de você. Toque no corpo, desprezo, você diz algo sobre alguém ter gostado de você, um café, outra pausa no dia pautado da lista de coisas para fazer. Você se despede de mim. Não vai olhar para os outros, por favor, dissimulados, eu, sincero, estou aqui. Te ofereço os próximos anos na minha vida. Trinta e seis dias, desbravo, vai desabar, é que nem gravidez diagnosticada em vômito, peitos e urina.

domingo, 1 de novembro de 2009

na pele dos outros {2}

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se bem que o corpo entende cada uma das calamidades de quem o veste.